Capítulo Três: O Orfanato nos Cortiços
Ao ouvir as palavras “dom espiritual”, Meng Tao virou-se bruscamente para Zhang Shao:
— Professor, o senhor está falando daquele dom espiritual que apenas os verdadeiros gênios possuem?
Zhang Shao, recobrando-se, alisou a barba e respondeu:
— Exato, trata-se do dom espiritual, uma espécie de superpoder que pode ser adquirido posteriormente. Ao obter o cubo mágico, a energia espiritual do indivíduo é completamente sublimada — e essa sublimação desperta o potencial do corpo, conferindo-lhe uma habilidade única.
Nesse momento, com o esmaecer da luz dourada, Yan Gong caminhou até Ye Bo, que estava ao lado do púlpito, e indagou:
— Você é o aluno Ye Bo, correto? Posso lhe perguntar qual é o atributo de sua arma espiritual e qual é o seu dom?
Diante da pergunta de Yan Gong, Ye Bo hesitou por um instante, ponderando se deveria ou não revelar a resposta. Logo, porém, tomou sua decisão.
Fez um gesto de punho e dirigiu-se a todos:
— Perdoem-me, não posso revelar o atributo da minha arma espiritual, mas meu dom é o chamado “Incomparável”: minha força de combate aumenta drasticamente por um curto período de tempo. — Assim que terminou de falar, golpeou o ar com o punho, e o estrondo que se seguiu deu a todos uma ideia do poder contido naquele soco.
Após o golpe, um burburinho percorreu a plateia.
— O que é esse tal de dom espiritual?
— Que dom absurdo é esse!
— Acho que um golpe desses seria suficiente para me matar...
Meng Tao, por sua vez, exultava em silêncio:
“Não é à toa que é meu irmão — até um dom desses conseguiu!”
Yan Gong sorriu:
— De fato, não é fácil revelar o atributo da arma espiritual. O dom do colega Ye Bo é realmente impressionante. Convido agora o próximo candidato.
No auditório, Zhang Shao balançou a cabeça e resmungou:
— Insensato! Ingênuo demais! O dom espiritual é igualmente valioso, ainda mais sendo tão poderoso...
Mal terminou, pressionou os ombros de Meng Tao e Li Mu, liberando sua aura:
— Se algum de vocês dois ousar revelar tudo assim como ele, juro que quebro as pernas de ambos!
Meng Tao e Li Mu, tomados de pavor, responderam em uníssono:
— Não vamos, não vamos! Garantimos que não deixaremos escapar nem um peido!
Zhang Shao recolheu sua pressão, dando tapinhas nos ombros dos dois:
— Ótimo. Logo será a vez de nossa turma. Daqui a pouco, Li Mu subirá primeiro, Meng Tao em seguida.
Ambos assentiram, indicando compreensão.
Seguiu-se uma sucessão de invocações rotineiras:
— Energia espiritual: 643.
— Energia espiritual: 463.
— Energia espiritual: 724.
...
— Agora, chamamos o último grupo, a Turma Nove.
Li Mu dirigiu-se resoluto até o cubo mágico, depositando nele toda a sua energia espiritual.
Uma resposta ecoou por todo o auditório.
Li Mu empunhava duas pistolas, e seu corpo resplandecia com uma aura dourada.
O silêncio reinou absoluto.
De repente, Li Mu fechou os olhos com força — seu dom estava ligado à visão, e ele não queria arriscar as pernas. Desceu apressado do palco.
Yan Gong, atônito, gritou:
— Ei, colega, seu...
Li Mu, olhos cerrados, correndo, respondeu:
— Não quero ouvir, não ouvi nada, não sei de nada!
A plateia explodiu numa gargalhada ensurdecedora.
Meng Tao, sufocando o riso, subiu ao palco.
Diante do “super cubo mágico”, pensou: “Tudo ou nada.”
Pressionou o cubo, canalizando sua energia espiritual.
De repente, uma resposta ensurdecedora ressoou.
Mas Meng Tao não abriu os olhos; seu cubo tampouco se manifestou.
Pois, além da resposta, uma voz ecoava incessantemente em sua mente:
— Chegou? Esperarei por você, sempre...
— Esperarei por você...
— Por você...
Meng Tao abriu os olhos de súbito e deparou-se com um mar azul de chamas ao seu redor e uma katana de estilo Tang (nota: neste mundo não há tal denominação, mas uso-a para facilitar a compreensão do leitor).
Agarrou a lâmina e pensou: “Esta é, então, minha arma espiritual?”
Em sua mente, surgiram caracteres:
— Nomear arma.
— Atributos: Golpe Pesado (aumenta a força do portador ao brandir a lâmina); aumenta a velocidade do portador.
Meng Tao sorriu ao infundir energia espiritual na lâmina:
— Doravante, chamar-te-ás “Chama Azul”.
No instante em que infundiu o poder, tanto ele quanto a arma foram tomados por chamas azuis abrasadoras; seus olhos tornaram-se intensamente azuis.
Meng Tao transformou a Chama Azul de volta no cubo e a pendurou na cintura, curvando-se em desculpas:
— Perdão, danifiquei o local.
Yan Gong apressou-se em tranquilizá-lo:
— Não se preocupe, Meng Tao. Posso perguntar sobre seu...?
Meng Tao, imitando Li Mu, desceu correndo e bradou:
— Eu não sei, não sei de nada!
Yan Gong mal conteve uma contração nos lábios.
Assim que Meng Tao voltou ao grupo, Li Mu bateu-lhe no ombro, invejoso:
— Caramba! Você estava incrível agora há pouco! Vi, assim que sua mão tocou o cubo, uma muralha de fogo azul ergueu-se ao seu redor. E depois, empunhando aquela lâmina em chamas... foi fenomenal!
Meng Tao ignorou os comentários, fitando os olhos de Li Mu:
— E os seus olhos? É o seu dom?
Li Mu imediatamente cobriu o rosto do lado de Zhang Shao e sussurrou:
— Cuidado, paredes têm ouvidos. Depois te explico.
Zhang Shao aproximou-se, apertando-lhe o ombro:
— E o que estão cochichando para esconder do velho aqui?
Li Mu logo respondeu:
— Nada, nada! Não estamos escondendo nada! Ai, ai, tá doendo!
Zhang Shao ignorou Li Mu e voltou-se para Meng Tao, preocupado:
— O que aconteceu? Está tudo bem?
Meng Tao acenou:
— Nada de mais, apenas despertei o dom espiritual.
Zhang Shao assentiu, alisando a barba:
— Muito bem. Não esperava que ambos despertassem dons. Mas tem gente que desconfia até do próprio mentor... nunca abre os olhos!
— Vão registrar seus dados e estão dispensados.
Meng Tao e Li Mu dirigiram-se ao local de registro, onde encontraram Zhong Yu, Ye Bo e a garota de óculos do cubo combinado.
Ao ver Meng Tao, Ye Bo correu até ele e passou-lhe o braço pelo pescoço:
— Você, hein? Estava demais agora há pouco!
Meng Tao tentou se desvencilhar, mas sentiu o peso do corpo aumentar. Ao olhar, viu que Ye Bo vestira luvas de combate e logo deduziu o atributo do cubo dele.
— O seu cubo é de gravidade?
Ye Bo o soltou, lançando-lhe um olhar que dizia: “Você entendeu.”
Meng Tao percebeu Zhong Yu olhando para ele, mas ela virou o rosto, fazendo um beicinho.
Confuso, perguntou a Ye Bo:
— O que houve com ela?
Ye Bo deu de ombros:
— Está insatisfeita! Se até você desperta dom, por que ela não pode?
Meng Tao sorriu:
— Ora, que diferença faz? Vamos logo registrar.
Ye Bo, energia espiritual: 999, Cubo de Combate, Nível Um.
Zhong Yu, energia espiritual: 1024, Cubo de Martelo, Nível Um.
Chen Xiaozhu, energia espiritual: 1246, Cubo Combinado, Nível Um.
Li Mu, energia espiritual: 1013, Cubo Combinado, Nível Um.
Meng Tao, energia espiritual: 1011, Cubo de Lâmina, Nível Um.
Após o registro, um enorme aparelho escaneou os cubos de todos, fazendo surgir um símbolo de três chamas em cada um deles.
Meng Tao contemplou o emblema, pensativo — era o brasão imperial. Seria a prova de que agora era um “espiritualista do Império Sul de Fogo”?
Terminada a burocracia, despediu-se de Ye Bo. Cotovelando Li Mu, perguntou:
— Por que seu cubo é do tipo combinado?
Li Mu fez uma careta de dúvida:
— Você não sabia que minhas pistolas podem se transformar em duas lâminas?
Meng Tao, igualmente confuso:
— Eu sabia disso?
— Deixa pra lá... Melhor irmos ver logo o que há com seus olhos, estou curioso! — disse Meng Tao, passando o braço pelo pescoço do amigo enquanto caminhavam para o dormitório.
No dormitório, os dois se encararam.
— Como assim, seus olhos ficaram dourados, com círculos concêntricos?
Li Mu, intrigado:
— É o dom “Olho de Deus”. Posso prever o próximo movimento do adversário e enxergar como se tivesse visão de águia num raio de centenas de metros. Só não consigo voltar ao normal...
Meng Tao, coçando o queixo, provocou:
— E pode ver através das coisas?
— Posso ver através de paredes e de pessoas com energia espiritual inferior à minha.
— Então feche os olhos agora! — E Meng Tao atirou um travesseiro em Li Mu.
Ao cair da tarde, Meng Tao revirava-se na cama, sem conseguir esquecer aquelas palavras:
Por que esperar por mim? Que significado teria isso?
Esperar por mim... Mas onde encontrá-lo? Não posso simplesmente tomar à força...
Perdido nesses pensamentos, caiu no sono.
Na manhã seguinte, Li Mu acordou-o, tagarelando sem parar:
— Levanta, levanta! Prometi te apresentar à minha donzela predestinada, não prometi?
Meng Tao, despenteado, resmungou:
— Você é louco? Ainda são oito horas!
Li Mu gemeu, sacudindo a cama:
— Anda logo! Ainda temos que comer e passear!
— Tá bom... — Meng Tao deu-lhe um chute e levantou-se para se arrumar.
Na rua, Li Mu não foi direto procurar a tal donzela. Ao contrário, comprou uma infinidade de artigos de uso cotidiano e alimentos.
Meng Tao, olhando para os sacos nas mãos, questionou:
— Pra que tanto trambolho? Nem como presente de boas-vindas precisa disso tudo...
Li Mu sorriu, evasivo:
— Pra que tanta pergunta? Daqui a pouco você vai entender.
Compras feitas, Li Mu guiou Meng Tao por vielas e vielas, até quase deixarem a capital imperial. Então, revelou-se diante deles um mundo diametralmente oposto ao da cidade.
Ali não havia arranha-céus, nem pessoas vestidas de terno e gravata, apenas antigas e desgastadas moradias e moradores trajados com roupas puídas.
Meng Tao ficou estupefato, buscando explicação no olhar de Li Mu. Sabia que havia pobres, mas não imaginava miséria tão extrema.
Ali, todos eram pele e osso; pelas ruas não se via sinal de carne, nem aroma, apenas vegetais quase apodrecidos. Havia até jovens vendendo o corpo à beira da estrada.
Li Mu informou, impassível:
— Esta é a zona sombria da capital, a “favela”.
Prosseguiram, sob a pressão da aura de Li Mu, até um “orfanato” de onde vinham risos infantis.
Para Li Mu, era o mais belo som do mundo: o único raio de luz naquela escuridão.
Meng Tao, diante do letreiro improvisado de madeira e giz, inquiriu Li Mu:
— É por isso que você chega tão tarde todo dia? Por que nunca me contou? Cheguei a pensar que você frequentasse casas de má reputação...
Li Mu deu de ombros:
— E pra que contar? Ia querer que você viesse cuidar dessa molecada comigo?
— O que você pensa que eu sou? — Meng Tao desferiu-lhe um pontapé.
Dentro do orfanato, uma jovem de cabelos cor-de-rosa cochichava para outra:
— Lá fora há dois, ambos de nível C. Devemos eliminá-los?
A outra balançou a cabeça:
— Não é necessário. Um deles é frequente, mas o outro nunca vi. Vamos observar.
— Chega de papo, vamos logo! Faz dias que não vejo esses pequenos anjos — disse Li Mu, sacudindo o pó das roupas e entrando com as sacolas.
Assim que entraram, dezena de crianças os rodearam.
— Irmão Mu, por onde esteve? Senti sua falta, não terminou a história da última vez!
Li Mu sorriu, afagando-lhes a cabeça:
— Tive uns compromissos, mas estou de volta. Comeram direitinho? Ei, Xiao Hei, como cresceu! Xiao Mei ficou ainda mais bonita!
Meng Tao, comovido, perguntou:
— E os pais deles?
— Todos foram mortos pelos chefes deste distrito. Alguns, por mero capricho.
Duas jovens de porte elegante saíram de um dos cômodos.
A de cabelos dourados recebeu as doações e, curvando-se em agradecimento:
— Em nome destas crianças, agradeço. Sou a nova diretora do orfanato. O antigo diretor me falou de você, senhor Li Mu. Quase todos os dias vem brincar com elas — é mesmo uma pessoa de bom coração.
Li Mu corou, coçando a cabeça:
— Que nada. Mas, a propósito, ainda não perguntei seus nomes.
A jovem apontou para o próprio busto generoso:
— Chamo-me Su Yu, tenho dezenove anos. Ao meu lado está He Qi.
Li Mu, risonho, apresentou Meng Tao:
— Este é Meng Tao, eu sou Li Mu, ambos com dezoito anos. Somos alunos do quarto ano da Academia Antiga Alpha.
— Alunos do quarto ano da Academia Alpha? Vocês são espiritualistas! — Com espanto, Su Yu deu alguns passos atrás.
Li Mu apressou-se em explicar, abanando as mãos:
— Não, não! Somos diferentes daqueles canalhas!
Su Yu relaxou:
— Compreendo. Se fossem iguais, não estariam aqui aquecendo corações.
Meng Tao, por sua vez, fitava a jovem de cabelos rosados com um pedaço de frango na mão, intrigado:
“Nunca ouviu falar da Academia Alpha? Ou não nos teme? Por que, afinal, dois jovens foram nomeados diretores após a aposentadoria do anterior?”
A jovem, percebendo o olhar de Meng Tao, escondeu o frango atrás das costas e fez um gesto desdenhoso com os lábios, antes de voltar a comer.
Meng Tao não conteve um sorriso:
“Até protege a comida!”
Su Yu os convidou a jantar e passar a noite ali.
Ambos assentiram de bom grado.
As crianças, vendo que os adultos terminaram de conversar, vieram brincar.
— Irmão Mu, conta uma história!
— Irmão Meng, vamos pular corda!
Li Mu tomou uma criança no colo e começou:
— Era uma vez um homem chamado Meng Tao, que gostava de bater na porta das viúvas à meia-noite...
A criança lhe deu um tapa no rosto:
— Conta outra! Quero ouvir sobre o príncipe e a princesa!
— Era uma vez um príncipe chamado Li Mu, que foi salvar a princesa Su Yu de um dragão maligno...
De repente, o salão inteiro ressoou em coro:
— Eiii...!