Capítulo Um: O Novo Vizinho Inexplicável

Tetangga Sang Pembunuh Senja Bersalju yang Sunyi 3779kata 2026-03-12 14:39:17

Os ponteiros do relógio completaram mais uma volta, emitindo um discreto “tic-tac-tic-tac”, mas, no silêncio do aposento, o som tornava-se estranhamente agudo e perturbador. Yu Zhe sentia-se profundamente incomodado com o ruído, mas estava exaurido, deitado imóvel no sofá, sem forças para se levantar e desligar aquele relógio irritante. Seus olhos, opacos e sem vida, estavam vermelhos, marcados pela insônia de mais uma noite.

Yu Zhe massageou as têmporas doloridas. Sempre que concluía um “trabalho”, a insônia o acometia, algo a que já estava habituado. Contudo, nos últimos seis meses, o problema se agravara: de algumas horas, passou a vinte, e agora já ultrapassava quarenta e oito horas sem dormir. Essa anomalia inquietava-o, e chegou a cogitar o uso de medicamentos para induzir o sono, mas logo descartou a ideia; para alguém como ele, dormir profundamente era um perigo.

O trabalho de Yu Zhe não era honroso: ele era um assassino. Tal como nas páginas de tantos romances, não tinha família, não tinha amigos, era sempre só e isolado. Sua vida repetia-se monotonamente, e nos últimos quatro anos, ele já não se recordava do motivo que o levou a entrar nesse ofício, tampouco da razão de permanecer. Mas isso pouco importava; habituara-se àquela existência insípida, tão habituado que jamais pensara em alterá-la.

Subitamente, ouviu-se um “toc-toc-toc” à porta.

Num salto, Yu Zhe ergueu-se do sofá, já com uma faca em punho, retirada do esconderijo sob os estofados. Mantinha sempre uma arma ao alcance, preparado para qualquer eventualidade. Felizmente, seus anos de vida haviam sido tranquilos, e ninguém viera buscar vingança até então.

— Se vieram vender algo, por favor, poupem-se; não preciso de nada — gritou Yu Zhe, cauteloso, escondido atrás do sofá, dirigindo-se ao exterior, ainda que pensasse: “Não parece perigoso.”

— Ah, não estamos vendendo nada... Se não for incômodo, poderia abrir a porta? — veio a resposta, uma voz feminina, não especialmente melodiosa, mas dotada de certa magnetismo que lhe agradava profundamente.

Talvez fosse o tom daquela voz, mas Yu Zhe relaxou parcialmente a guarda, ainda que permanecesse vigilante. Aproximou-se da porta, faca em punho, sem abrir de imediato, antes de espreitar pelo olho mágico.

Do outro lado, estavam duas pessoas: um homem e uma mulher. Ela, jovem, aparentando pouco mais de vinte anos, segurava uma pequena caixa delicada; o homem, bem mais velho, quase cinquenta, carregava um saco recheado de caixinhas idênticas. A voz, evidentemente, pertencia à moça.

— O que querem? — perguntou Yu Zhe, abrindo uma fresta da porta, voz fria.

— Bom dia! — respondeu a jovem, sorrindo com a suavidade de um sol de inverno. — Chamo-me Shi Muluo, este é meu pai, Mo Lin. Acabamos de nos mudar e trouxemos alguns pequenos presentes para os vizinhos.

— Os seus sobrenomes...

— Ah... — Shi Muluo sorriu, um pouco constrangida. — Após o falecimento de minha mãe, adotei o sobrenome dela, para homenageá-la.

— Meus sentimentos.

— Não se preocupe~ — Shi Muluo entregou-lhe a caixinha com ambas as mãos. — São biscoitos que assei pessoalmente, gostaria que aceitasse.

Yu Zhe hesitou, guardou a faca no coldre especial à cintura e finalmente abriu a porta por completo, examinando os visitantes com atenção.

Shi Muluo era mais alta que a maioria das garotas, de aparência comum à primeira vista, mas, sob olhar atento, seus olhos brilhavam, os dentes eram alvos, as sobrancelhas bem delineadas, e o rosto de traços delicados, ovalado, exalava certa graça; seus cabelos negros, contudo, pareciam tingidos, sem brilho, ásperos e desordenados.

Mo Lin, o pai, era robusto, de feições marcantes, sobrancelhas espessas e olhos pequenos, cabelos cuidadosamente arranjados com gel, além de uma barba bem aparada, conferindo-lhe uma aura de maturidade cativante.

Yu Zhe recebeu a caixa das mãos de Shi Muluo, mais leve do que imaginava, nada indicando perigo.

— Obrigado — disse, já pronto para fechar a porta, mas foi detido por Mo Lin.

— Espere um instante.

— Há mais alguma coisa?

— Nada de especial, apenas gostaríamos de saber seu nome, se não for incômodo. Moramos ao lado; caso precise de algo, podemos ajudar.

Diferente do sorriso sincero de Shi Muluo, o de Mo Lin era “profissional”, cortês, mas impenetrável, o que causava em Yu Zhe certa inquietação.

— Não há necessidade de lhes dizer — respondeu Yu Zhe, secamente. Percebendo que Mo Lin ainda desejava falar, Yu Zhe não lhe deu oportunidade, fechando a porta com força. Não queria estabelecer vínculos com ninguém; embora rude, era o melhor para evitar que aqueles dois se intrometesse em sua vida.

Após fechar a porta, Yu Zhe ainda se sentia incomodado. Espiou pelo olho mágico, observando a reação dos visitantes: ambos ficaram surpresos, depois sorriram entre si, resignados, e seguiram para bater na porta do próximo vizinho.

Só quando teve certeza de que haviam partido, Yu Zhe sentou-se no sofá com a caixa, examinando meticulosamente a embalagem, sem detectar qualquer anormalidade. Ao abri-la, encontrou realmente biscoitos cuidadosamente assados, selados com adesivos de desenhos animados, adoráveis e bem feitos.

Após confirmar repetidas vezes que nada estava escondido nos biscoitos, Yu Zhe jogou o pacote inteiro no lixo. Mesmo sem sinais externos de perigo, jamais poderia confiar nos ingredientes. Para quem vive de seu ofício, cautela nunca é demais.

Yu Zhe dirigiu-se à janela, abriu as pesadas cortinas de uma vez, deixando que o sol inundasse o quarto escuro, iluminando-o instantaneamente.

Do lado de fora, via-se o cenário familiar: a Sétima Rua do Quarto Distrito, sempre animada, cheia de gente e carros, mas aquela vivacidade parecia, a Yu Zhe, irreal, como se pudesse desaparecer a qualquer instante.

Vestiu um casaco qualquer, cobriu o rosto com um lenço, e saiu. Tinha o hábito de visitar diariamente o pequeno café ao pé do prédio, sentando-se junto à janela para observar os transeuntes. Era, de certo modo, o único prazer em sua rotina monótona.

No caminho, reencontrou a dupla de pai e filha, que distribuíam biscoitos aos demais moradores. Shi Muluo, com sorriso constante, era comunicativa, rapidamente conquistando a simpatia dos vizinhos, enquanto Mo Lin permanecia atrás dela, silencioso.

Yu Zhe fixou o olhar no rosto de Shi Muluo, e por um momento, deixou-se absorver.

“Talvez eles se tornem bons vizinhos aos olhos dos outros”, pensou Yu Zhe. Apesar de ter visto os dois apenas uma vez, principalmente a jovem Shi Muluo, sentia uma inexplicável sensação de tranquilidade emanando dela, um sentimento perigoso para quem era assassino, pois qualquer emoção supérflua podia ser fatal.

Apertou ainda mais o lenço sobre o rosto, apressou o passo pela escada, mas Shi Muluo ainda percebeu sua presença.

— Tão rápido nos encontramos novamente~ — disse Shi Muluo, sorrindo com brilho, acenando para Yu Zhe, sem demonstrar ressentimento por sua rudeza de antes.

Yu Zhe parou, virou-se rigidamente para ela, sem saber como responder; hesitou por um instante, apenas assentiu com a cabeça antes de se afastar depressa.

Por razões desconhecidas, Shi Muluo possuía um magnetismo natural, capaz de tocar até Yu Zhe. Ele esforçava-se para manter-se impassível, ocultando qualquer alteração emocional.

No Quarto Distrito, Sétima Rua, existia um pequeno café discreto, a poucas quadras de sua casa. O dono era mestre na arte do café, mas o negócio era fraco, superado pelas grandes marcas, preferidas pela maioria.

Yu Zhe, porém, era fiel àquele lugar, apreciando o sabor único do café e, mais ainda, a tranquilidade, já que quase ninguém o frequentava.

Mas naquele dia, algo estava diferente. Normalmente, o café abria o dia inteiro, mesmo sem clientes. Naquela manhã, já ostentava a placa de “Fechado”, algo incomum.

Pela janela, Yu Zhe viu o dono ocupado, prestes a ir embora, quando foi avistado pelo proprietário, que largou o que fazia e o puxou para dentro.

Dentro do café, Yu Zhe percebeu que quase tudo havia sido removido: apenas mesas, cadeiras e o balcão de café permaneciam; o restante estava embalado em caixas, até os adesivos decorativos tinham sido retirados dos vidros.

— O que aconteceu...? — Yu Zhe examinou o ambiente, já intuindo o motivo, mas quis ouvir do dono.

— O negócio está péssimo, não há como continuar... — suspirou o proprietário, lamentando deixar o lugar ao qual dedicara todo seu esforço, e ainda mais perder Yu Zhe, seu único cliente fiel, que elogiava sinceramente o café.

— Mas não se preocupe, já vendi o café para um pai e sua filha. Eles disseram que continuarão com o negócio. Vi o talento da moça, ela é até melhor que eu, então, quando quiser tomar café, ainda poderá vir aqui.

— Tão rápido foi vendido... Mas, mais do que isso... ao pai e filha? — Yu Zhe sentiu uma pontada de dor de cabeça, a imagem de Shi Muluo e Mo Lin surgindo à mente.

— Sim, eles parecem bem, mas curiosamente têm sobrenomes diferentes. Enfim, não convém perguntar demais, para não tocar em assuntos delicados...

— Como eu suspeitava... — Yu Zhe sentiu a dor intensificar-se. Desde o início, Mo Lin e Shi Muluo apareciam com frequência inquietante em sua vida, provocando-lhe uma sensação estranha de perseguição.

Após conversar brevemente com o dono, Yu Zhe saiu, desviando o caminho para passar por uma casa abandonada. Sem ser notado, rapidamente arrombou a caixa de correio, recolhendo tudo que havia dentro e partindo como se nada tivesse acontecido.

Em casa, despejou o conteúdo sobre a mesa: um conjunto de cartões-postais, impressos com esmero, cada um com um breve poema.

Após reorganizar os versos, Yu Zhe encontrou a mensagem oculta:

“Amanhã, às três da tarde, receber o pagamento final.”