Capítulo Sete: Empacotando
O CHEFE ainda tinha quase metade de sua vida, mas num piscar de olhos, Ye Ming, o segundo curandeiro do grupo, atacou de súbito e, com uma força avassaladora, reduziu a vida do monstro a zero. O BOSS tombou ruidosamente, deixando para trás um chão salpicado de materiais e equipamentos que irradiavam um brilho tênue.
— Afinal, que classe você é? — indagou Yun Bian Langzi, esquecendo-se por um momento da dor em seu peito, o rosto tomado de assombro.
Primeiro, ele agira como sacerdote; em seguida, como guerreiro; por fim, aquele feixe azul-escuro era claramente uma habilidade de mago — e o dano fora de tal magnitude que, após o primeiro ataque, o agro do BOSS transferiu-se imediatamente para Ye Ming. Diante de tal poder destrutivo, Yun Bian Langzi simplesmente não compreendia o que via.
— Profissão misteriosa. Não há o que discutir. E vocês, por favor, não comentem nada com terceiros — disse Ye Ming.
— Que sujeito poderoso! — exclamou Yun Bian Langzi, atônito.
— Examinei os equipamentos; nenhum me interessa. Fiquem com eles. No entanto, caiu um Núcleo de Rocha, é material. Poderiam me conceder? — pediu Ye Ming.
— Claro que sim! Você é incrível — pronunciou-se a Jovem Senhora, fitando Ye Ming com um olhar de admiradora rendida.
— Não foi nada — replicou Ye Ming com um sorriso. Ser elogiado por uma bela dama, afinal, é uma satisfação.
— Mestre, aceite-me como amigo! Vamos manter contato — Yun Bian Kanke veio, entusiasmado, ao seu encontro.
— Mestre, permita-me aprender com você no futuro — acrescentou Yun Bian Caixia, aproximando-se também.
— Ora essa, neste grupo, sempre fui o centro das atenções! Vocês estão puxando muito o saco... Ah, Jovem Senhora, não me refiro a você. Hehe, mestre, cedo-lhe o posto de líder do grupo. Agora, pode me carregar por aí? — Yun Bian Langzi levantou-se depressa e, com ainda mais deferência, passou o braço pelo ombro de Ye Ming.
No início da dungeon, Yun Bian Langzi dissera que carregaria Ye Ming; agora, já esquecera por completo tal promessa.
— Sem problemas, basta que sigam as diretrizes. Mas parece que não poderemos desafiar o próximo BOSS. Sua vida caiu abaixo de sessenta por cento, não ganhamos a conquista — observou Ye Ming.
— É mesmo? Culpa minha... Mas não tem problema, saímos, entramos de novo e tentamos outra vez, não? — sugeriu Yun Bian Langzi.
— Façamos assim: voltem, estudem com atenção o guia da Floresta da Fogueira e assistam aos vídeos de outros jogadores. Não tenhamos pressa. Quando todos estiverem verdadeiramente familiarizados com a estratégia, partiremos para a próxima investida — propôs Ye Ming.
— Combinado, mestre manda — concordaram.
Dividiram os equipamentos e, em seguida, os cinco deixaram a instância. Dentro do cenário, bastava derrotar um BOSS para surgir um portal na região, permitindo a saída imediata.
— Convido vocês para comer algo, todos devem estar exaustos — propôs a Jovem Senhora, já na cidade da dungeon.
— Jovem Senhora, ouvi dizer que abriu uma casa de lámen novinha aqui por perto, e dizem que o sabor é extraordinário. Vamos experimentar? — sugeriu Yun Bian Langzi.
— Ótimo, vamos todos juntos — a Jovem Senhora sorriu de leve para Ye Ming.
— Na verdade, não estou com muita fome, talvez... — Ye Ming nem terminou a frase; Yun Bian Langzi já o agarrava pelo braço, insistindo: — Vamos, todos acabamos de nos conhecer, é bom partilhar uma refeição e fazer amizade. Mestre, não seja tão frio, certo?
— Pois bem... está bem — Ye Ming aquiesceu. Talvez, pensou consigo, fosse hora de fazer alguns amigos.
Assim, os cinco, guiados por Yun Bian Langzi, rumaram à recém-inaugurada casa de lámen da cidade da instância. Pelo caminho, Ye Ming ouviu Yun Bian Caixia e Yun Bian Kanke cochicharem:
— Não sei qual loja será a vítima da vez... A Jovem Senhora é terrível, parece que esta casa de lámen será saqueada até os alicerces, terão de reformar tudo.
— Se está destinado, não há como evitar. Oxalá a Jovem Senhora seja mais contida desta vez.
— Do que estão falando? — indagou Ye Ming, sem compreender.
— Hã? Nada não, mestre. Quando chegarmos, você entenderá — respondeu Yun Bian Kanke, em voz baixa.
— Oh — Ye Ming apenas assentiu.
A cidade da instância fervilhava de lojas — de bugigangas, equipamentos, utensílios e restaurantes. A casa de lámen, mencionada por Yun Bian Langzi, realmente era nova; a faixa de inauguração ainda pendia sobre a entrada.
— Mestre, não se espante com as atitudes da Jovem Senhora. Com o tempo, a gente se acostuma — sussurrou Yun Bian Langzi ao lado de Ye Ming.
— Mas afinal, do que estão falando? — Ye Ming já estava confuso.
— Lá dentro, você verá — Yun Bian Langzi sorriu enigmaticamente e entrou primeiro.
A casa de lámen era recém-aberta, o ambiente elegante e original; espaçosa e luminosa, no ar pairava uma fragrância sutil, provavelmente de alguma especiaria rara da instância, que aguçava os sentidos.
— Uau, que lustre maravilhoso! É feito de cristal azul? E o pavio, é esculpido em pedra arco-íris? E como conseguiram entalhes tão delicados? E as trepadeiras verdes pendendo, que toque único, que beleza! — Ao entrar, a Jovem Senhora exclamou, encantada, apontando para o lustre no teto, o olhar tomado de fascínio.
— Que olhar apurado, senhorita! Este lustre foi inspirado no design do Palácio de Cristal Azul, da instância homônima. Conseguir esse projeto não foi tarefa fácil. Em Wan Hai Wan, poucas lojas ostentam um lustre assim — explicou uma atendente, sorridente.
— É mesmo inspirado no Palácio de Cristal Azul? Que maravilha! Deixe-me ver... um, dois, três... são sete. Quero comprar todos — contou nos dedos a Jovem Senhora, dizendo algo que deixou Ye Ming e a atendente boquiabertos.
— Comprar? Perdão, senhorita, esses lustres são decoração da casa. Não estão à venda; somos uma loja de lámen — esclareceu a atendente, um tanto aturdida.
— Não vendem? Que pena... Oh! Este quadro foi pintado com pincel de flores? Os traços são tão delicados, a execução perfeita... Este mar azul parece ganhar vida na tela, quase posso ouvir o som das ondas — a Jovem Senhora já corria para admirar uma pintura na parede.
— É uma paisagem marítima da instância Baía da Lua Crescente, obra de artista renomado de Wan Hai Wan, de valor considerável. Senhorita, seu olhar é mesmo singular — disse a atendente.
— Quanto custa? Posso comprar? — a Jovem Senhora lançou um olhar de súplica.
— Bem... Não está à venda, só comercializamos lámen. Posso apresentar-lhe nossos pratos especiais? — a atendente já se mostrava constrangida, pensando se a moça estava ali para arranjar confusão, ou se tinha algum parafuso a menos.
— Também não vende? Que pena... E este boneco? Que gracinha... — avistando um brinquedo peculiar, a Jovem Senhora correu até ele.
— Senhorita... — a atendente apressou-se atrás dela.
Ye Ming finalmente compreendeu o que diziam os três de antes: a Jovem Senhora queria comprar tudo o que lhe agradasse — esquecendo que ali era uma casa de lámen, não um grande magazine.
Yun Bian Kanke e Yun Bian Caixia mantinham-se impassíveis, já acostumados; Yun Bian Langzi, porém, sumira.
— Cadê ele? — perguntou Ye Ming.
— Foi falar com o dono. Ele já conhece o processo, faz parte do ritual — respondeu Yun Bian Kanke.
— Que ritual? — Ye Ming ainda estava perdido.
— O ritual de compras: negocia com o dono, depois embala tudo o que a Jovem Senhora deseja levar — explicou Yun Bian Kanke.
— Mas não viemos comer lámen? — questionou Ye Ming.
— Sim. Mas, para a Jovem Senhora, comprar e comer não são coisas excludentes. Veja, lá vem Langzi — apontou Yun Bian Kanke.
Yun Bian Langzi apareceu pela porta dos fundos, batendo no ombro de um homem de meia-idade, como velhos conhecidos.
— Tudo o que a senhorita escolher, embale — ordenou o homem em voz alta.
— Patrão, ela quer comprar os lustres, as pinturas, os bonecos... até o papel de parede! — a atendente exclamou, atarantada.
O homem, que era o proprietário, ao ouvir isso, teve um breve espasmo no canto dos lábios, mas por fim, num gesto resoluto, exclamou:
— Embale tudo!