Capítulo 4 Visitantes do Sul
Num piscar de olhos, passaram-se vários dias. Uma chuva recente desceu sobre o Lago Chao, fazendo com que as águas crescessem e lavassem, uma vez mais e com delicadeza, os diques à beira da margem. Os salgueiros, com seus fios dourados, estendiam-se ao longo do dique, desenhando gradualmente uma faixa de verdor que ia do mais profundo ao mais tênue. Sobre o lago, uma névoa tênue e sedutora, como uma jovem donzela, espalhava-se graciosa e sutil, traçando um véu de branco leitoso quase imperceptível.
Não se passara ainda meio mês e já a névoa espessa tomava o Lago Chao, estendendo-se por dezenas de metros; antes, envolvia apenas vagamente a Ilha Bai Ling no centro do lago, mas, nestes dias, sem que se percebesse, já cobria quase toda a superfície, recolhendo-se ao coração do lago apenas à noite. Desde que os redemoinhos começaram a se espalhar pelas águas, poucos dos arredores de Shouyang se aventuraram a pescar ali — e assim, mesmo sob o mais claro dos céus diurnos, quase não se viam figuras humanas sobre o Lago Chao.
Contudo, no declive suave do dique, entre as árvores esparsas de um bosque, ouvia-se, tênue, o eco de risos e vozes infantis. Logo, uma menina vestida de saia e blusa cor-de-rosa surgiu de trás de uma árvore, rindo:
— Irmão Shen, há aqui tantas flores silvestres! Faça-me mais uma daquelas casinhas de flores e ervas, como aquela de outro dia, e em troca eu lhe costuro um sachê, igualzinho ao que minha mãe fez para mim, pode ser?
Shen Bailing se aproximou e, de fato, encontrou atrás da árvore um matagal de flores silvestres, exalando um perfume delicado e florescendo em exuberância. Arregaçando as largas mangas, sorriu e respondeu:
— O bordado de Aci eu não ouso elogiar, mas fazer uma casinha de flores não é difícil. Vá colher as flores.
Ruan Ci exclamou de alegria e acocorou-se entre as flores, escolhendo-as cuidadosamente. Shen Bailing sentou-se então sobre uma grande pedra, sorrindo enquanto puxava um ramo de salgueiro, colhendo uma folha longa e estreita, que levou aos lábios e, após um leve franzir de boca, começou a soprar.
No bosque, elevou-se então uma melodia límpida e aguda; não era especialmente bela, mas tinha uma suavidade e leveza que encantavam. Shen Bailing ostentava feições relaxadas, os longos cabelos, como nuvens de ébano, esparramados nas costas; os pés, alvos como a neve, pisavam a relva verde, enquanto as mangas rubras balançavam ao vento, revelando braços pálidos de quem sempre viveu submerso, longe do sol. Era uma figura deveras despreocupada e livre.
Desde o dia em que salvara Ruan Ci, ela, no dia seguinte, comparecera conforme prometido à orla do bosque trazendo consigo doces humanos. Shen Bailing nunca antes provara iguarias do povo humano; o delicado e macio bolinho de lótus e osmanthus conquistara-lhe o coração juvenil — e fez crescer ainda mais seu apreço por Ruan Ci.
Desde então, humano e demônio tornaram-se amigos íntimos. Shen Bailing, por mais de uma década, estivera sempre ao lado da mãe, Shen Danqing, mulher rígida e fria, que jamais lhe demonstrara ternura, mesmo sendo filho único; assim, a maior parte dos dias do ano eram-lhe pouco felizes. Agora, brincando constantemente com Ruan Ci — embora fosse apenas uma menina de poucos anos —, encontrava nela uma alegria viva e espirituosa, cheia de graça, capaz de arrancar-lhe risos e dissipar todos os desgostos herdados da mãe.
Ruan Ci era filha única, muito amada pelos pais, que pouco a repreendiam, e por isso conseguia frequentemente escapar de casa. Destemida, não se deixava intimidar pelos rumores sobre o Lago Chao que afastavam os habitantes da cidade; vinha, sem hesitar, todos os dias encontrar Shen Bailing, demonstrando grande afeição por seu companheiro de brincadeiras. Trazia-lhe doces e frutas frescas, cantava canções que Shen Bailing jamais ouvira, recitava poemas desconhecidos — e, percebendo o interesse dele pela escrita humana, mesmo não sendo uma exímia conhecedora, ensinava-lhe, com surpreendente paciência e certa autoridade de mestre, a escrever o próprio nome na areia.
Assim, em pouco mais de dez dias, os dois tornaram-se ainda mais próximos. No entanto, embora Shen Bailing tivesse simpatia por Ruan Ci, não ousava abrir-se completamente, sempre atento às advertências maternas, evitando revelar-lhe sua verdadeira natureza demoníaca.
Ruan Ci, enfim, colheu flores em abundância e, com as mãos cheias de cores vivas, correu até o irmão Shen, que, uma a uma, foi pegando as flores e trançando-as; seus dedos longos e ágeis rapidamente deram forma à casinha de flores e ervas.
Ruan Ci deitou-se ao lado, brincando com uma folha de salgueiro, tentando soprá-la de tempos em tempos, enquanto espiava curiosa as mãos de Shen Bailing, vendo surgir, pouco a pouco, o telhado, as portas e janelas da pequena casa, deliciando-se sem disfarce.
Foi então que, subitamente, um vento frio soprou pelo bosque, fazendo as folhas caírem em turbilhão. Shen Bailing ergueu o olhar e viu nuvens negras cobrindo o céu, as montanhas do sul tomadas por nuvens revoltas que se adensavam, movendo-se como tinta espessa rumo ao norte.
Sobre o Lago Chao, a névoa branca também se agitava, espalhando-se como se quisesse galgar os diques. As montanhas distantes perdiam-se na penumbra, as nuvens cada vez mais baixas, o vento uivando, os galhos e flores arremessados por toda parte. Shen Bailing jamais presenciara tempo tão estranho, sentiu inquietação, mas, ao ver o terror estampado no rosto de Ruan Ci, forçou-se a manter a compostura, protegendo-a junto a si.
A nuvem negra, trazendo consigo poeira e pedras, em instantes chegou ao Lago Chao. Parecia dotada de inteligência, pois contornou a névoa sobre a água e veio diretamente ao bosque da margem. Shen Bailing, intrigado, semicerrando os olhos, viu luzes de cinco cores piscando dentro da nuvem negra, ora brilhando intensamente, ora ocultas por algo.
A nuvem avançou velozmente, passando por sobre o bosque e seguindo na direção da cidade de Shouyang.
O estranho é que, tão logo a nuvem desapareceu, o céu voltou lentamente a clarear; o vento cessou, as nuvens dispersaram-se. Já era crepúsculo, e um sol poente, rubro e desmaiado, tocava os montes do oeste.
Ruan Ci puxou a manga de Shen Bailing e exclamou:
— Irmão Shen, aquele vento agora há pouco foi tão esquisito, e passou tão depressa! Eu ainda vi uma nuvem estranha, ela voava tão rápido!
O coração de Shen Bailing estremeceu. Pensou: "Aquela nuvem brilhava com luzes sinistras, deveras insólitas. Não seria algum demônio?"
Ele próprio sendo um demônio, não podia revelar tal suspeita a Ruan Ci, e apenas a tranquilizou:
— Foi só um vento mais forte. Ainda bem que não choveu, senão teríamos virado duas galinhas molhadas. Vamos, está ficando tarde, eu a levo até o portão de Shouyang.
Ruan Ci ia assentir, mas de repente arregalou os olhos e apontou para trás de Shen Bailing, exclamando:
— Irmão Shen, olha ali! O que é aquilo?
Shen Bailing olhou por sobre o ombro e também se espantou: viram então névoas coloridas flutuando na direção de onde viera a nuvem negra, rodopiando no ar; como se houvessem ouvido as palavras de Ruan Ci, pouco a pouco começaram a descer ao solo. Quando a névoa dissipou-se, revelaram-se algumas silhuetas humanas.
Ruan Ci gritou:
— Olha, tem gente dentro da nuvem colorida!
Shen Bailing, porém, sentiu algo errado e, dando um passo à frente, pôs-se diante de Ruan Ci.
Ouviu-se então a voz de uma mulher, rindo da névoa:
— Menininha, não é nuvem colorida, isso é o miasma venenoso de cinco cores da nossa tribo xamânica do sul!
A voz era encantadora, mas havia nela certa aspereza, como se não fosse do interior da China.
A névoa se dissipou, e, sobre a terra, estavam cinco jovens, homens e mulheres, todos com turbantes de pano azul, túnicas negras de colarinho cruzado bordadas com fios multicoloridos em padrões exóticos, calças de tecido azul, os braços e pernas descobertos, apenas adornados com braceletes e tornozeleiras de prata e ouro; traziam longas facas às costas e, à cintura, bolsas e tubos de bambu de vários tamanhos — uma aparência deveras singular.
A mulher não era especialmente bela, mas sua pele era alvíssima. Vendo Shen Bailing observar atentamente os objetos pendurados em suas cinturas, sorriu:
— Que belo rapazinho, parece gostar dos nossos insetos venenosos. Quer que eu lhe dê um?
Ao falar, ergueu o pulso e, do alto de sua trança enrolada, tirou uma pequena serpente branca, grossa como um dedo.
— Qianhe, não brinque! — repreendeu um jovem de argola de prata na orelha, dando um passo à frente e saudando Shen Bailing. — Não se assuste, pequeno irmão, minha irmã só está brincando.
Era o mais velho e parecia ser o líder do grupo. A mulher, advertida, não se zangou, apenas sorriu e recolheu a mão; a serpente, num instante, sumiu-lhe na trança.
O jovem prosseguiu:
— Pequeno irmão, nós do sul não conhecemos as muitas etiquetas de vocês do centro. Só queremos lhe perguntar uma coisa. Se souber, diga-nos, e toda a tribo dos xamãs negros lhe será grata. Vocês, há pouco, viram um homem vestido de preto passar por este bosque?
Sul, tribo dos xamãs negros? Shen Bailing refletiu e respondeu:
— Não vimos homem de preto algum.
Os outros jovens atrás do rapaz mostraram-se desapontados.
Shen Bailing, tranquilo, acrescentou:
— Porém, há pouco, vimos sim uma nuvem negra muito estranha passar por cima do bosque, na direção de Shouyang.
E apontou para o oeste.
O jovem se iluminou:
— Sim, deve ser ele! Ele deve estar escondido naquela nuvem negra... Muito obrigado, pequeno irmão!
Saudou novamente, voltou-se para os companheiros e ordenou:
— Vamos!
A mulher lançou um olhar a Shen Bailing e sorriu:
— Que rapazinho direto! Ajudou muito nossa tribo dos xamãs negros. Se conseguirmos achar aquelas coisas primeiro, quero ver o que o pessoal da tribo dos xamãs brancos vai dizer!
O miasma colorido ergueu-se da clareira, envolvendo-os mais uma vez, e aos poucos alçaram voo em direção a Shouyang.
Da névoa, ainda se ouviu a voz da mulher:
— Chamo-me Li Qianhe, e quem falou com você foi meu irmão mais velho, Li Qianguan. Se um dia vier ao sul, prometo que eu e meu irmão o receberemos em nossa casa — não é isso que vocês do centro fazem? Tome este sinal, guarde bem!
Enquanto ria, algo foi lançado do miasma rumo ao rosto de Bailing, e o veneno colorido afastou-se flutuando para Shouyang.
Sabendo da presença de venenos entre aqueles do sul, Shen Bailing não ousou pegar o objeto atirado por Li Qianguan e apressou-se a sair do caminho. O objeto caiu no chão com um estalo: era uma pequena faca de madeira.
Curiosa, Ruan Ci correu a pegá-la e exclamou:
— Que coisa engraçada, parece uma faquinha!
E entregou-a a Shen Bailing.
Ele examinou-a: a pequena faca tinha o comprimento de um dedo, rústica e antiga; no cabo, uma fita de fios coloridos; na lâmina romba, desenhos estranhos, semelhantes aos bordados nas vestes do grupo.
Ao ver o olhar de Ruan Ci, que parecia gostar do objeto, Shen Bailing perguntou:
— Aci gostou? Então é sua.
Ruan Ci recusou veementemente:
— De jeito nenhum! Aquele presente foi dado a você pela irmã, não posso aceitar. E se ela ficar brava e mandar uma cobra morder a gente?
Shen Bailing não conteve o riso:
— Pois bem, esta faca não é grande coisa. Da próxima vez, trago para você algo melhor!
Nota do autor: Colocarei três capítulos por ora, a partir de amanhã haverá atualizações diárias~