Capítulo Seis: Reconhecimento entre Pai e Filha
Qin Feng sentou-se à soleira da porta, já completamente sereno; e, quando a preocupação cedeu lugar à calma, percebeu subitamente que não sabia com que sentimentos deveria encarar aquela criança.
Sobre o leito, a menina já abrira os olhos — olhos belos, porém ainda destituídos de brilho. Contudo, ao ver Qin Feng adentrar o quarto, ela murmurou duas palavras, quase inaudíveis:
— Papai?
Um aperto súbito lhe tomou o peito, dissipando-lhe de imediato qualquer pensamento. Aproximou-se com passos apressados, sentando-se à beira do leito:
— Papai está aqui!
A menina, temerosa com sua aproximação, puxou o cobertor na tentativa de se esconder debaixo dele, como se buscasse abrigo.
— Você... é mesmo meu pai? — murmurou, a voz abafada por desconfiança. — O vovô não mentiu para mim...?
O ancião Wu, médico de longa data, semicerrando os olhos, apressou-se a responder com benevolência:
— Criança, o vovô é médico, e médicos não mentem. Este homem é, de fato, seu pai.
O velho doutor, desde que avistara a ossatura da menina, soube de imediato do vínculo inusitado entre ela e Qin Feng; bastaram-lhe algumas conjecturas para desvendar quase toda a verdade.
Qin Feng não se importou com a ousadia do médico; pelo contrário, sentiu um aperto ainda maior no peito. Sua grande mão pousou com delicadeza sobre a cabeça da criança, e a voz suavizou-se num sussurro:
— Sou o teu pai. O papai... voltou.
A menina fitou-o, atônita; e, finalmente, um lampejo brilhou em seus olhos outrora opacos — era o reflexo de uma lágrima.
— Dói... — murmurou ela, entre lamentos.
Qin Feng, assustado, pensou ter apertado demais; recolheu a mão, aflito:
— Onde dói? Papai vai ser mais delicado...
No entanto, a menina, num impulso, ergueu-se e lançou-se em seus braços, frágil como era.
— Eles me bateram... dói tanto...
Qin Feng ficou apenas um instante surpreso; em seu coração misturavam-se a satisfação de ser reconhecido e uma profunda compaixão.
— Não temas, papai voltou. De agora em diante, enquanto eu estiver aqui, ninguém mais se atreverá a te ferir!
Desejou apertá-la forte contra o peito, mas temeu machucá-la; permaneceu, por longos instantes, sem saber como agir, apenas sentindo o olhar irônico do velho doutor Wu ao lado.
— Já basta — interrompeu o médico, com certo humor, — sei que atrapalho o momento tocante entre pai e filha, mas preciso dizer: esta criança está muito debilitada. Só conseguiu se manter acordada ao ouvir que o pai havia retornado.
— Deixe-a repousar.
Advertido, Qin Feng apressou-se em deitá-la novamente.
A menina, de fato, já estava quase em torpor, mas ainda murmurava entre sonhos:
— Papai... mamãe...
Qin Feng sentiu o coração enternecido. Prometeu:
— Quando você acordar, o papai vai te levar para encontrar a mamãe.
Só então a menina, exaurida, adormeceu.
— Senhor — chamou então Luocha, apenas quando Qin Feng saiu do quarto. — Ao investigarmos a família Dong, descobrimos que estavam envolvidos com tráfico de mulheres, em conluio com o Império da Águia. A vinda de Jared provavelmente tem relação com isso. Contudo, a identidade dele é delicada...
Qin Feng recompôs-se, refletiu por um breve momento e esboçou um sorriso de desprezo:
— Um mero Jared, e eu não ousaria detê-lo? Se o Império da Águia quiser intervir, que venham exigir satisfações diretamente a mim.
— Lidarei com isso quando terminar este assunto. — Luocha não se surpreendeu com a resposta. Afinal, mesmo que fosse a rainha do Império da Águia em suas mãos, eles não ousariam enviar tropas para reivindicá-la. No fim das contas, teriam forças para tanto?
Luocha sorriu, mostrando os dentes.
— Sim, senhor.
Em seguida, apresentou uma lista:
— Eis aqui, Senhor, os nomes de todos os envolvidos naquele caso de anos atrás. Estão todos relacionados.
Qin Feng fez que sim com a cabeça, lançando um último olhar ao quarto.
Luocha, atento como sempre, apressou-se a assegurar:
— Não se preocupe, Senhor. A pequena está sob nossa proteção; ninguém ousará sequer tocá-la.
Qin Feng lançou-lhe um olhar rápido, admitindo assim sua preocupação, mas ainda assim ordenou:
— Se ela sentir saudades de mim, chame-me.
Luocha quase travou diante da resposta.
Saudades? Não apenas em caso de perigo?
Que zelo é esse!
Ainda que o assaltasse uma torrente de pensamentos, Luocha não ousou contestar:
— Sim, senhor.
***
O primeiro nome na lista entregue por Luocha era Yun Peng.
Este homem, irmão de Dong Chang, era figura de renome — o chefe do submundo de Longjiang, com influência tanto no crime quanto nos negócios legais, e seus lucros superavam os de Dong Chang.
Diante de Qin Feng, erguia-se agora o “Bar Yunlong”, delineado sob as luzes de néon na noite, um dos estabelecimentos usados para negócios escusos sob o comando de Yun Peng.
Naquela noite, ele encontrava-se ali.
— Por gentileza, chame Yun Peng para sair — disse Qin Feng, adentrando o local com passos firmes, acompanhado de seus homens.
O alvoroço não tardou a chamar atenção dos presentes, que logo se puseram a zombar:
— Quem ousa arranjar confusão aqui?
— Deve ser novato... não sabe de quem é este território?
— Acham que trazendo uns capangas já podem bancar os valentes? Estão pedindo para morrer!
O gerente do bar veio às pressas; ao reconhecer Qin Feng e seus homens, seu semblante fechou-se de imediato.
Fosse coincidência ou premeditação, Qin Feng viera claramente desafiar o poder local.
— Nem todos têm o direito de ver nosso patrão. Ponham-se daqui para fora! — ordenou, acenando; dez brutamontes de olhos ferozes surgiram das sombras.
Justamente quando a briga ia começar, uma voz inesperada ressoou:
— Ora, ora, quem diria... É você mesmo, Qin Feng.
Ao ouvirem, os presentes abriram caminho. Um homem de rosto oleoso, dedos ornados por anéis dourados, avançou lentamente.
Era Yun Peng.
Qin Feng fitou-o, inexpressivo.
Yun Peng, porém, foi o primeiro a falar:
— Eu nem sabia que hoje era dia de festa. Não tive tempo de preparar uma recepção à altura para você, Qin. Afinal, acabou de sair da cadeia como criminoso perigoso.
— Qin Feng... agora me lembro, o criminoso perigoso!
— Bah! Então é ele, Qin Feng!
— Foi esse bastardo que desgraçou Ye Mengrou anos atrás. Como pode estar solto tão cedo?
Entre cochichos e insultos, os homens de Qin Feng já ardiam em fúria.
Aqueles ousavam difamar o Senhor!
— Não precisa de falsas cortesias — respondeu Qin Feng, sem se exaltar. — Yun Peng, você participou do plano para me incriminar.
— O quê? Ora, Qin, se vai me acusar, traga provas! — Yun Peng negou, rindo desdenhoso. — Então quer dizer que você veio ao meu bar... para se vingar?
Ao ouvir isso, o bar explodiu em gargalhadas.
— Que presunção! — zombou alguém. — Então venham, mostrem do que são capazes...
— Ataquem — ordenou Qin Feng, e antes que os outros terminassem a frase, seus homens avançaram.
Os guerreiros do Salão Shura, treinados à perfeição, cada um valia por dez!
Os seguranças de Yun Peng não eram páreo; um só olhar sanguinário de seus adversários bastava para fazê-los tremer como presas diante de leopardos.
Em menos de cinco minutos, o bar estava coberto de corpos; apenas Yun Peng permanecia de pé — e, ao redor, uma multidão de subordinados de expressões glaciais, que, em uníssono, se dirigiram ao Senhor, imóvel no centro do tumulto:
— Senhor, resta apenas um.
E quem seria esse último?
O outrora arrogante Yun Peng agora tremia, as pernas molhadas pelo medo.
— N-não... não pode ser... Qin Feng, como...