Capítulo 5 O Meio-Irmão é um Pequeno Mudo
Wen Yao conduziu-o para Sopé da casa e entregou-lhe o pão cozido no vapor.
Da Tou inclinou a cabeça, fitando-a, como se perguntasse de onde aquilo viera.
“Foi o pai que comprou, deixou especialmente para ti. Come depressa.” Wen Yao colocou o pão nas mãos do menino.
Da Tou, porém, ficou a observar o pão por um instante; depois, ergueu a mãozinha e o devolveu a Wen Yao.
“Isto é para ti, porque mas dás?” perguntou Wen Yao.
Da Tou insistiu, empurrando o pão mais para a frente.
“Queres que eu coma?” indagou Wen Yao.
Da Tou acenou afirmativamente com suprema seriedade.
Wen Yao quase se comoveu até às lágrimas. Um irmãozinho tão dócil, como podia aquele tal de Meng suportar tratá-lo como uma simples ferramenta?
“Já comi, isto é do Da Tou. Come tu, sim?” O coração de Wen Yao transbordava de emoção: finalmente sentia-se irmã mais velha, não uma eterna caçula.
Só depois de se certificar, repetidas vezes, de que Wen Yao realmente não comeria, Da Tou sentou-se no pequeno banco e começou a trincar o pão com cuidadosas mordidas.
Com receio de que se engasgasse, Wen Yao trouxe-lhe ainda uma tigela de água.
Depois de acomodar Da Tou, Wen Yao saiu à procura de Wen Jun.
“Doutor Wen, veja se arranja um tempo para dar uma olhada neste nosso irmãozinho barato? Já tem quase quatro anos e ainda não fala.” Embora no livro Da Tou acabasse por falar, nunca ficou explicado por que motivo não falava em pequeno, e Wen Yao não podia deixar de se inquietar perante uma criança tão crescida e ainda muda.
Wen Jun lançou um olhar ao pequeno rabanete sentado dentro de casa. O menino, como que sentindo o olhar, retribuiu, fitando-o.
Surpreendido, Wen Jun não conseguiu desviar o olhar a tempo, e só pôde oferecer o sorriso que julgava ser o mais amável, gentil e indulgente de todos.
Felizmente, Da Tou limitou-se a olhar e voltou a concentrar-se no seu pão, sem chorar, gritar ou se mexer em demasia — um verdadeiro modelo de menino comportado.
“Bem mais dócil do que tu eras em criança,” suspirou Wen Jun, o que lhe valeu um tabefe de Wen Yao.
Após uma breve brincadeira, os irmãos continuaram a ajudar Wen Xiu Yi a pôr ordem na cozinha, separando o que ainda podia ser utilizado — afinal, no dia seguinte continuariam a precisar dela e não se podia depender apenas do espaço para conseguir comida.
Para eles, nada disso era muito relevante, mas agora havia também Da Tou, era preciso redobrar os cuidados.
Quando os três regressaram ao quarto, o pequeno anjo já terminara o pão, tirara os sapatos e adormecera na cama.
Tão ajuizado que não dava a menor preocupação.
Naquele instante, os três partilharam o mesmo pensamento: nesta vida, jamais, jamais permitiriam que Da Tou fosse levado por Liu Shi ou pelo tal Meng!
“Amanhã vou à cidade ver se encontro algum trabalho. Xiao Jun, tu ficas em casa a cuidar da tua irmã e do teu irmão,” disse Wen Xiu Yi, que, com as memórias intactas da sua vida anterior, sabia bem que, naquele tempo, sem dinheiro nada se fazia. Pensava procurar algo que lhe fosse adequado, pois, afinal, fora um estudante com mérito.
Wen Jun, sentindo-se já com dezasseis anos e capaz de ajudar, quis ir também.
Mas Wen Xiu Yi recusou: “Amanhã ficas em casa com a irmã e o irmão, e vais ao seio da família pedir ao segundo e ao terceiro tio que ajudem a refazer o fogão da cozinha. Se houver materiais, que se construa logo um abrigo.”
Sem cozinha, tudo se tornava complicado.
Wen Jun teve de abandonar a ideia de sair, prometendo cuidar bem dos centelhas da casa.
Wen Xiu Yi assentiu, satisfeito, e olhando para o engarrafado filho menor já adormecido, acrescentou: “Agora só temos dois quartos. Xiao Jun fica comigo, Yao Yao, vais ter de ficar com o Da Tou, por ora.”
“Estou OK,” murmurou Wen Yao, fazendo até o gesto de OK com fantasticidade.
Wen Xiu Yi lançou-lhe um olhar reprovador. Sorte que Da Tou dormia — se outro visse, que pensaria de tal cena?
Na manhã seguinte, ao acordar, Wen Yao deparou-se com a ausência do pai.
“O pai levantou-se antes do amanhecer. Disse que para chegar a Yunwu leva mais de uma hora de caminhada. Mandou ficarmos em casa a pôr tudo em ordem, que ele daria um jeito de ganhar dinheiro. Para não nos preocuparmos,” explicou Wen Jun.
O coração de Wen Yao apertou-se. O pai nunca fora de queixar-se do sacrifício, sempre se desdobrara por eles, até quando trabalhava no Instituto de Ciências Agrárias — mesmo assim, acordava antes das cinco para lhes preparar o pequeno-almoço.
Enxugando discretamente as lágrimas, Wen Yao disse: “Já que o pai se esforça tanto, não podemos ficar à toa. Vamos primeiro levar Da Tou para a casa da avó, e depois vais comigo à montanha.”
Com Da Tou por perto, seria preciso redobrar o cuidado ao trazer coisas do espaço. E, de qualquer forma, já não havia pontos de realização.
Sem recursos, só restava depender da montanha e do rio. E, quem sabe, a serra não traria algum ponto de realização, e com eles, algum dinheiro para gastar.
Quando se preparavam para levar Da Tou à casa da avó, este ficou parado, imóvel, os grandes olhos ainda mais expressivos no rosto magro, fitando os irmãos com um ar tão perdido que Wen Yao e Wen Jun sentiram o coração amolecer.
“Da Tou, sê bonzinho. O irmão e eu vamos só à montanha ver se encontramos algo para comer. Fica em casa da avó, sim? Voltamos para te buscar, está bem?” Wen Yao falou-lhe com toda a doçura.
Da Tou pareceu ponderar. Olhou-os fixamente por uns segundos, depois correu ao quarto e, ao regressar, trazia um pequeno saquinho, que estendeu a Wen Yao.
Os irmãos trocaram um olhar.
“O que é isso?”
Da Tou empurrou o saquinho, sugerindo que Wen Yao o abrisse.
Ao abri-lo, Wen Yao não conteve o espanto.
“Mano, é dinheiro!” O saquinho estava cheio de moedas de cobre, talvez duzentas ou trezentas.
Olharam ambos para Da Tou: então o menino sabia esconder dinheiro?
Depois de entregar o dinheiro, Da Tou sentou-se no limiar da porta, deixando clara a sua intenção: têm dinheiro, não precisam de me deixar na casa da avó.
“...”
Se Wen Yao não soubesse da inteligência precoce do pequeno, teria pensado que era mais um deles, vindo de outro mundo.
Mas, dinheiro à parte, ainda tinham de ir à serra.
Wen Yao guardou o dinheiro e explicou: “Isto chega para uns dias, mas e depois? Se gastarmos tudo, ficamos sem nada. Temos de arranjar maneira de ganhar dinheiro, certo? Temos de reconstruir a casa, Da Tou precisa de comer... tudo isso custa dinheiro. Por isso, sê bonzinho e fica na casa da avó à nossa espera, sim?”
Da Tou pareceu pensar nas suas palavras. Só depois de algum tempo assentiu com a cabeça.
Wen Yao respirou aliviada; não deixava de sentir algum peso ao lidar com aquela criança.
Antes de sair, retirou cinco moedas do saquinho e, então, levou Da Tou para a casa velha.
Os da casa velha não esperavam ver Wen Yao e Wen Jun a devolver-lhes Da Tou.
“Avó, eu e o mano vamos à montanha buscar lenha e comida. Deixamos aqui o Da Tou, e estas cinco moedas são para o almoço dele de hoje.” Wen Yao entregou as moedas a Luo Shi.
Para reparar a relação com os familiares, não podiam mais tirar proveito deles.
Luo Shi olhou para ela, depois para as moedas.
“De onde veio esse dinheiro?” indagou Luo Shi.
Wen Yao não podia dizer que fora Da Tou quem dera, então mentiu: “O pai deixou antes de sair. Foi à cidade procurar trabalho.”
Luo Shi ficou atónita, como se tivesse ouvido algo extraordinário.
“Teu pai? Disseste que teu pai foi à cidade procurar trabalho?” Talvez a idade lhe tivesse roubado o ouvido, pois jamais acreditaria que aquele filho desalmado procurasse emprego.