Volume I Capítulo 7 Ela Não Voltará Mais
— Deve ter sido a família Ji! — rosnou Pei Zhongmou, cerrando os dentes, a voz carregada de rancor. — Com certeza guardaram ressentimento de nós e vieram roubar antes de irem para o campo, como vingança.
Pei Yu’an logo concordou, inflamado: — Isso mesmo! Ontem humilhei Ji Junxiao, ele até me agrediu. Agora só pode ser ele querendo se vingar.
Os três, então, voltaram o olhar para Lin Ranyan.
O coração de Lin Ranyan bateu descompassado; apressou-se a sacudir a cabeça, negando veementemente: — Eu não sei de nada, eles não me disseram coisa alguma.
Lin Su’e, convicta de que fora obra da família Ji, praguejava entre soluços: — Só pode ter sido aquele bando de pai e filhos! São ágeis como gatos, roubar é coisa fácil para eles. Temos que chamar a polícia! Não pode ficar assim, precisam ser presos!
O que Lin Ranyan mais queria era esvaziar a casa do canalha Pei Yu’an, mas não imaginara que acabaria causando problemas para a família Ji. Desesperada, tentou dissuadir: — Tia, de jeito nenhum chame a polícia!
Pei Zhongmou arregalou os olhos, vociferando: — Está querendo protegê-los?
Com o rosto tomado de mágoa, Lin Ranyan apressou-se a explicar: — Tio, juro que não! A família Ji está prestes a ser enviada para o campo, se agora abrirem um inquérito de roubo, eles vão acabar presos, investigados. Se encontrarem os objetos, ainda vai, mas e se não acharem? Vão acabar se voltando contra os Pei! Ouvi dizer que já pediram a reabertura do caso de corrupção; se encontrarem provas, não vão mais ser transferidos, coisa nenhuma.
Ao ouvir isso, o semblante de Pei Yu’an empalideceu: — Ranyan, é verdade? Eles pediram para reabrir o caso?
Lin Ranyan assentiu com ar grave: — Sim, ouvi de fonte confiável que já entraram com o pedido.
O rosto de Pei Zhongmou tornou-se sombrio e, após um instante de reflexão, dirigiu-se a Lin Ranyan: — Fique de olho nos Pei. Qualquer movimento, avise seu primo imediatamente. E quanto ao ocorrido hoje, não diga nada a ninguém. Eu mesmo conduzirei uma investigação reservada. Quero ver quem ousa tanto assim a ponto de me roubar!
Por dentro, Lin Ranyan sorria, mas na face manteve-se séria: — Pode deixar, tio, sei muito bem o que fazer.
— An’er, acompanhe Ranyan até a saída. — ordenou Pei Zhongmou.
Pei Yu’an e a mãe acompanharam Lin Ranyan até a porta.
Ela suspirou, fingindo pesar: — Justo agora que eu ia assumir o controle das finanças, parece que tudo foi por água abaixo.
Com o coração apertado, Lin Su’e arrancou quinhentos yuan e os enfiou na mão da sobrinha: — Fique com este dinheiro, use com a família Ji. Ainda que tenhamos perdido joias e ouro, você precisa conquistar o controle das finanças deles!
Então a tia ainda tinha dinheiro escondido!
Lin Ranyan aceitou o dinheiro e sorriu: — Não se preocupe, tia. Vai dar certo.
Pei Yu’an redigiu uma nova promissória a favor de Lin Ranyan.
Ela, ao receber o papel, sentiu o coração exultar: aquele canalha agora lhe devia quatro mil!
Que dia de conquistas!
A vida de quem possui um “dedo de ouro” é realmente perfeita!
Já diante da porta dos Pei, Lin Ranyan olhou para todos os lados à procura do belo marido, mas não viu sinal dele.
Talvez, cansado de esperar, tivesse ido embora.
Pois que fosse.
Agora, com dinheiro, ela decidiu ir ao mercado e abastecer seu estoque secreto.
Com receio de ser reconhecida, colocou uma máscara, cobrindo o rosto por inteiro.
Ao passar pelo brechó, seus olhos brilharam e, sem hesitar, decidiu vender todos os pertences da casa do primo.
Nunca se contentaria com quinquilharias de segunda mão.
Caminhou até o responsável do local, abaixou a voz e disse: — Tenho uma remessa de móveis usados. Daqueles que não podem ser vendidos à luz do dia, entende? Quero me desfazer barato. Vocês se atrevem a comprar?
O encarregado a examinou dos pés à cabeça antes de responder, cauteloso: — Só vendo a mercadoria para saber.
Com um sorriso confiante, Lin Ranyan declarou: — Estão todos numa viela ali perto. Venha comigo que verá.
O homem a seguiu até a viela. Mal avistou a pilha de móveis, seus olhos se arregalaram.
Ora, eram peças de excelente qualidade! Apesar de usados, a madeira era de primeira.
Vendo a expressão dele, Lin Ranyan sentiu-se segura e propôs: — O lote todo, duzentos yuan. Que me diz?
O responsável fez-se de difícil: — Está caro. Por cem, até dá para levar.
Lin Ranyan ponderou: — Veja, com alguns marceneiros habilidosos, uma demão de tinta, pequenos reparos, esses móveis podem ser vendidos como novos na cooperativa. Só dez peças já cobrem seu custo. Se eu não estivesse grávida e os outros brechós não fossem tão longe, esta barganha jamais seria sua.
O homem, convencido, bateu na coxa: — Feito, duzentos!
Lin Ranyan advertiu: — Mas precisa ser discreto, não pode deixar ninguém ver.
— Pode confiar, pode confiar! — acenava o homem, sorrindo.
Com duzentos yuan em mãos, Lin Ranyan sentia-se tão feliz que até seu passo ganhou leveza.
O responsável, ainda entusiasmado, suplicou: — Moça, se aparecer mais coisa boa, venha sempre a mim!
Os olhos de Lin Ranyan brilharam. Testando: — E joias, aceita? Posso vender barato.
Os olhos do homem cintilaram de excitação: — Aceito, claro que aceito!
Naqueles tempos, só era possível vender ouro e prata a instituições estatais, como o Banco Popular da China.
Mas os bens dos Pei eram de procedência duvidosa, não restava senão vendê-los por preço vil.
Lin Ranyan sugeriu: — O ouro hoje vale quarenta por grama. Vendo a quinze para você. Pode repassar a vinte e ainda lucrar muito. Mas só podemos negociar às escondidas, está entendido?
O responsável não hesitou: — Feito, fechado!
Lin Ranyan decidiu-se e vendeu dois mil yuan em ouro.
Ao contar o dinheiro, não conteve o júbilo.
Já o homem sorria de orelha a orelha — um dia de ganhos extraordinários.
Lin Ranyan cogitara ir à cooperativa, mas logo lhe ocorreu que as lojas estatais tinham variedade e produtos de maior requinte.
Generosa, gastou dez yuan para contratar dez homens como seguranças e avançou em cortejo rumo ao grande armazém.
Ao adentrar o prédio, parecia um animalzinho deslumbrado, olhos brilhando de excitação diante de tantos tesouros.
Da seção de alimentos à de utilidades, passando pelos tecidos, ferragens e eletrodomésticos, comprava sem relutar.
Os funcionários, estupefatos, jamais tinham visto alguém gastar tanto de uma só vez; vários logo se aproximaram para atendê-la pessoalmente.
— De quem será essa madame tão abastada? — cochichou um.
— Pois é! Gastou dois mil numa só ida. Sabe o que é isso? Meu salário mensal não passa de dez! — comentou outro.
— Uns nascem para brilhar, outros para invejar... — lamentavam, tomados de ciúme e admiração.
Lin Ranyan orientou os dez homens a levarem as compras para uma viela, pagou-os prontamente e os despediu.
Aproveitando-se do lugar deserto, rapidamente guardou tudo em seu espaço secreto.
Agora, com tanto suprimento, a vida no campo seria confortável.
Ao passar pelo mercado, parou e comprou frangos assados e patos laqueados, dourados e crocantes, além de diversas sementes de arroz, hortaliças e flores.
Ao passar na frente da livraria, não resistiu e entrou, escolhendo uma pilha de livros.
Pensou que, com literatura, o tempo no campo passaria mais ameno.
Só voltou para casa satisfeita quando já havia comprado tudo que precisava.
Do outro lado, na sala de jantar da família Ji, todos estavam reunidos à mesa. Os pratos já servidos, mas ninguém ousava tocar nos hashis.
A mãe Ji, sentada, olhava a porta incessantemente, o rosto ansioso e expectante.
Esperaram quase uma hora, os estômagos roncando, mas ninguém teve coragem de comer primeiro.
Com determinação, a mãe declarou: — Temos que esperar Ranyan. Se ela não vier, ninguém toca na comida.
O pai Ji, já aborrecido nos últimos dias, sentia-se ainda mais frustrado: afinal, era raro jantar em família e a nora sumira. Não podia estar mais desgostoso.
— Esperar por ela? Acham mesmo que vai voltar? Irmão, não entendo como pôde mandá-la para a casa dos Pei. Acha que seu chapéu não está suficientemente verde? — criticou Ji Junyao, envenenada.
As palavras fizeram os olhos da mãe se encherem de lágrimas. Olhou para Ji Junxiao, suplicante: — Xiaoxiao, talvez ela tenha se magoado por você não ter esperado por ela. Vá agora, busque-a na casa dos Pei.
— De jeito nenhum, irmão! Ela vai te humilhar junto com os Pei — preveniu Ji Junyong.
— Exato! Essa Lin Ranyan é perversa, quer destruir toda a família! — esbravejou Ji Junshan.
O semblante do pai endureceu, a voz cortante: — Comam! Quem reclamar vai ficar de pé no pátio por duas horas!
Se alguém nutria ódio, era o pai — nada superava a mágoa que Lin Ranyan lhe causara.
Ele, um vice-comandante honrado, fora ludibriado por uma mulher — era indigno de um militar!
Tudo culpa do filho mais velho: um homem feito, enredado por uma mulher traiçoeira, envergonhando a farda!
Lançou um olhar fulminante a Ji Junxiao.
Este disse: — Comam, irei buscá-la.
Se necessário, a traria à força, ao menos até partirem.
Era preciso levar a farsa até o fim.
Agora, com todos de ânimo tão abalado, aquela mulher era mesmo odiosa!
A mãe aconselhou: — Seja gentil, traga Ranyan de volta.
O pai: — Proibido ir! Ji Junxiao, fique duas horas de pé no pátio, sem jantar!
Quando Ji Junxiao se levantava, ouviu-se uma alegre algazarra do lado de fora.
Lin Ranyan entrou saltitante, com um frango assado lustroso na mão esquerda e um pato laqueado perfumado na direita.
— Cuidado, Ranyan! — exclamaram todos, os corações apertados, o olhar atento à barriga já levemente arredondada.
Ji Junxiao reagiu mais rápido que todos, correu até ela e a amparou, conduzindo-a com cuidado até a cadeira.
Só então a família Ji respirou aliviada.
— Cheguei bem a tempo do jantar! Estou faminta! Marido, venha cortar o frango e o pato, hoje teremos um banquete! — exclamou Lin Ranyan, radiante, alheia ao espanto geral.
Todos se entreolharam, perplexos e desconfiados.
Ela não só retornara, como trouxera carne!
Algo estava errado...
Haviam quase um mês sem provar carne. O salário de todos era entregue a ela, e o pouco que comprava era só para si.
A mãe, com pena da nora grávida, cedia-lhe sempre a carne; os demais, só olhavam.
Agora, de súbito, frango assado e pato laqueado... Não estariam envenenados?
— Vamos, marido! Meus braços estão doendo! — instigou Lin Ranyan, vendo Ji Junxiao paralisado.
Ele, despertando, apressou-se a levar as aves à cozinha.
A mãe, chorosa e emocionada, ordenou: — Yao Yao, esquente os pratos. Sua cunhada está grávida, não pode comer frio.
Ji Junyao, incrédula, demorou a reagir: — Ah... sim, já vou.
Ao carregar os pratos, lançava olhares suspeitos sobre a cunhada.
Que trama estaria ela urdindo agora?
Os irmãos, passados do susto, a fitavam, desconfiados.
A mãe aproximou-se, afagando-lhe a mão: — Não está cansada, filha?
— Não, mamãe. Aliás, passei na farmácia e comprei remédio para a senhora. Essas ervas são ótimas, servem para uso interno e externo.
Tirou do pacote um embrulho cuidadosamente preparado e entregou à sogra.
A mãe, trêmula, recebeu, os olhos marejados: — Para mim? De verdade?
— Claro, mamãe. Sua saúde é importante.
— Oh, Ranyan, você é tão atenciosa! — E chorou de emoção.
Lin Ranyan olhou para o sogro, que permanecia calado. O coração apertou — sabia que ele ainda estava magoado. Arriscou, suave: — Pai...
Ele levantou o rosto, olhar gélido: — Hum.
A sogra interveio: — Não ligue, filha. Ele anda preocupado, não está bem.
Com os olhos úmidos, Lin Ranyan murmurou, a voz embargada: — Foi tudo culpa minha. Eu era imatura, prejudiquei a todos. Agora reconheço meus erros e quero mudar. Peço que me deem uma chance para reparar meus atos.
Todos ficaram ainda mais atônitos.
Como podia aquela mulher, sempre arrogante e egoísta, mudar tão drasticamente num só dia?
Era, de fato, difícil de acreditar.