Capítulo Quatro Mia

Kakekku adalah Kaisar Shenluo. He Qingjiu 2979kata 2026-03-11 14:41:34

Sentada na cadeira de Franz, com uma expressão inocente enquanto saboreava o café que também lhe pertencia, a jovem criada pareceu subitamente recordar-se de algo.

— Pequeno Franz... emmm, Sua Alteza, Arquiduque Franz, está na hora do desjejum. Depois disso, terá trinta minutos de descanso antes das aulas... Ai! — Pelo visto, havia mordido a língua de novo. O alemão cortesão, com toda a sua rigidez e formalidade, ainda era estranho para aquela menina acostumada ao dialeto da Baviera.

Chamava-se Mia, e fazia menos de um ano que, aos treze anos, entrara no palácio — podia-se dizer, de certo modo, que era a criada particular de Franz. Embora desajeitada, sensível e facilmente tomada pelo nervosismo — em certos momentos incapaz até mesmo de articular as palavras —, Mia frequentemente se escondia atrás do pequeno Franz, então com seis anos, sempre que surgia um estranho.

Mia não possuía sobrenome; era filha de um pescador. Seu pai, um bêbado incorrigível; sua mãe, filha de um caldeireiro cigano. Desde que se lembrava, o pai passava os dias pescando e as noites embriagado — bastava perder-se no álcool para descarregar os punhos sobre a esposa, e Mia tampouco escapava das surras.

Certa vez, Mia acolhera um cãozinho de rua. O animal era dócil, e todos os dias a esperava, rodopiando em torno de suas pernas quando ela e a mãe retornavam da coleta de lenha. Um dia, porém, descobriu que o cãozinho tornara-se petisco do pai para acompanhar a bebida. Nada disse, apenas recolheu os ossos do animal e deu-lhe um pequeno túmulo.

Após a morte da mãe, o pai, entregue ainda mais ao vício, começou a racionar ainda mais o alimento e a espancar Mia com mais frequência, acusando-a de ser um fardo, uma inútil, a razão pela qual a comida já não bastava para a casa. Para sobreviver, Mia foi obrigada a lançar-se ao rio, pescando e apanhando camarões, apenas para não sucumbir à fome.

Até que, aos treze anos, ouviu o pai combinar com o criado de um visconde — assim que completasse catorze, Mia seria dada em casamento ao velho mordomo da casa senhorial. O mordomo já passava dos sessenta, a face sulcada de rugas profundas e um sorriso lascivo que frequentemente se estendia em direção às jovens criadas.

A mera lembrança daquele rosto causava-lhe arrepios. Queria fugir, mas para onde? E por que Deus lhe reservava destino tão cruel? Teria cometido algum pecado que atraíra a ira divina? À noite, escondia-se sob o cobertor remendado, consolando-se: “Deus é misericordioso... ainda há amanhã, haverá um amanhã melhor.” Mas as lágrimas, essas, não cessavam de rolar.

Pelas estradas rurais da Baviera, um esquadrão de cavaleiros trajando vestes esplêndidas escoltava uma carruagem de ouro. No interior, Madame Sophie mostrava-se absorta em pensamentos.

Ela percebera que Franz, diferente das outras crianças, não chorava, não fazia birra, tampouco se interessava por brinquedos; especialmente desde a morte do velho imperador, tornara-se ainda mais taciturno, alheio ao mundo circundante.

Franz, seu primogênito e favorito do falecido imperador, era, para todos os efeitos, o herdeiro legítimo. O imperador Ferdinand I, atual soberano, era impopular, sua esposa Anna incapaz de sustentar o império, e sem filhos. No seio da família, era consenso: Franz Joseph seria o próximo imperador.

Madame Sophie seguia para visitar uma irmã na Baviera. Ao passarem por uma casa de pescador decadente nas margens do Danúbio, Franz, com os olhos brilhando, contemplava a paisagem pela janela da carruagem.

O sol espalhava-se suave, o céu azul coalhado de nuvens alvas, montes e rios verdes, e ao longe, a silhueta nevada dos Alpes...

Mas Madame Sophie, atenta, sabia que não era a paisagem poética dos Alpes que prendia o olhar do filho. Seguindo o olhar de Franz, viu uma jovem filha de pescador a sacudir as redes. As vestes eram puídas, remendadas, mas as pernas longas e alvas destacavam-se de modo espantoso.

Madame Sophie crispou os lábios num esgar; em seu íntimo, não pôde deixar de pensar: “Realmente, não nega o sangue dos Habsburgos...” Retirou as luvas e afagou a cabeça de Franz. Ele percebeu o olhar matreiro da mãe e logo recompôs a postura, pigarreando e sentando-se ereto, embora não conseguisse evitar lançar olhares furtivos para fora da janela.

Sophie, entre a irritação e o divertimento, suspirou com ternura: “Ah, eis aí o verdadeiro espírito de um herói.” Apertou-lhe as bochechas com afeto, e, com um gesto, ordenou ao séquito que parasse. Apontou para a menina ao longe.

— Como desejar, senhora — respondeu o camareiro, inclinando-se com deferência antes de dirigir-se, acompanhado de dois criados e dois guardas, àquela casa.

O coronel Hüsel, camareiro-mor, servia Madame Sophie desde o início de sua jornada bávara, há mais de dez anos. Conhecia-lhe o temperamento e compreendia bem suas intenções. Mas não deixava de estranhar: por que, sendo ela tão altiva e intransigente, agora queria levar uma garota? Seria para presentear o marido com uma amante? Mas a moça era tão jovem...

A caravana prosseguiu, e Hüsel despediu-se dos próprios pensamentos, galopando com uma carruagem até a casa do pescador.

Lá dentro, o homem, já de corpo corroído pelo álcool, atirava a garrafa na direção da filha, praguejando:

— Maldita inútil! Essa sopa de peixe é pior que água de lavar os pés! Maldita a hora em que aquela cigana me deu uma filha!

— Já não há sal em casa faz tempo... eu... não há nada que eu possa fazer — respondeu a menina, mordendo os lábios, esforçando-se por ser corajosa.

— Ainda ousa retrucar, sua...!

O bêbado ergueu o braço, mas este foi subitamente detido por uma mão forte e enérgica.

— Senhor, isso está longe de ser conduta de um cavalheiro — disse o coronel Hüsel, sorrindo; apenas o brilho gélido dos dentes denunciava a ameaça.

— Quem é você, seu desgraçado, para se meter na minha casa?

O bêbado pretendia continuar, mas a dor no pulso trouxe-lhe à razão e permitiu-lhe distinguir o uniforme: um jovem oficial em branco impecável, espada e pistola à cintura, e quatro guardas de semblante sombrio atrás de si.

O pescador empalideceu: nobreza... um coronel... pistola, espada... desafiar um superior... morte! Mil pensamentos cruzaram-lhe a mente. Engoliu em seco e, com um baque, caiu de joelhos:

— Perdoe-me, senhor coronel, tenha piedade!

Hüsel já vira demasiados miseráveis entregues à degradação e às tragédias que os assolavam. Sem dar atenção ao homem prostrado, dirigiu-se à jovem apoiada na porta, tirou o chapéu e fez uma mesura:

— Perdoe-me a ousadia, senhorita, mas era você que há pouco estendia redes à beira do rio?

A menina assentiu timidamente.

— Como se chama?

O cérebro dela era um vazio; com esforço, conseguiu balbuciar:

— Mia...

Hüsel sorriu, cortês:

— Que belo nome.

Virou-se ao pescador caído. Um dos guardas ergueu o bêbado.

— Proponho-lhe um negócio — disse o coronel. Um criado adiantou-se, trazendo um contrato e um saco de florins do Reno.

O pescador arregalou os olhos ao ver as moedas reluzentes, engoliu em seco. Agora, completamente lúcido, esboçou um sorriso servil:

— O que desejar, senhor, é só mandar.

Hüsel deu-se conta de que era inútil esperar que um camponês daqueles soubesse ler; apontou para a menina junto à porta.

O homem estremeceu, mas logo sorriu de modo torpe, emitindo um arroto alcoólico. Hüsel conteve o nojo e, com paciência, mandou que lhe entregassem o contrato.

O bêbado logo pressionou o polegar sobre o documento. A criada entregou-lhe o saco de moedas. O pescador mordeu uma delas, soprou-a, encostou ao ouvido, e, satisfeito, seus olhos brilharam.

Duas criadas rodearam-no, ergueram a perplexa garota de pernas longas e saíram com ela. Mas o bêbado lançou-se aos pés de uma das criadas, gritando:

— Minha filha!...

Derramou algumas lágrimas de crocodilo.

As criadas, acostumadas apenas ao trato com a nobreza, jamais haviam lidado com semelhante canalha. Apesar de servas, pertenciam à mais antiga casa real da Europa: as Habsburgos.

E este bêbado miserável? Só de pensar nisso, sentiam-se tomadas pela ira. Uma delas desferiu-lhe um pontapé.

Mas o pescador, decidido a não largar sua mina de ouro, agarrou-se com todas as forças. Sabia que os nobres, tão ciosos de sua honra, acabariam cedendo — ou pagariam mais, ou devolveriam a filha para negociá-la de novo.

O sorriso torpe do bêbado, com sangue e saliva escorrendo-lhe dos lábios, era mais terrível que um choro.

Um dos guardas lançou-lhe um olhar gélido, mas Hüsel, com um gesto, o deteve. Aproximou-se do bêbado, retirou outro punhado de moedas e as espalhou pelo chão. Imediatamente, o homem largou a criada e foi recolher as moedas.

As criadas conduziram a jovem ao interior da carruagem. Hüsel, à frente no cavalo, iniciou a perseguição ao comboio de Madame Sophie. Os dois guardas, porém, não os acompanharam.

Quando o séquito se afastou, a choupana à margem do rio, não se sabe como, foi tomada por um incêndio devastador...

Ao reencontrá-la, Mia vestia-se já como criada — um uniforme limpo, modesto. Apresentou-se com doçura. Gostava imensamente daquele pequeno amo, que tantas vezes dormia a sesta deitado em seu colo, tão adorável e esperto quanto o cãozinho que um dia acolhera.