Capítulo Seis: De fato, teu coração é implacável.
No Salão Qingyuan, um homem e uma mulher se enfrentavam num silencioso duelo de olhares—ele, sentado, ostentando coroa de pérolas e trajes régios; ela, de pé, vestindo delicada indumentária palaciana cor-de-rosa. A diferença de suas posições era abissal, mas, curiosamente, a imponência de ambos parecia não ceder em nada um ao outro.
— Pois se aceitá-la, ou não, que diferença faz? Como posso saber se não és uma espiã da Imperatriz Viúva Chen ou da Nobre Consorte Ming? E se interceptaste o frasco azul apenas para granjear minha confiança? — Após longo embate de olhares, Wei Shenzhi foi o primeiro a romper o silêncio.
— Majestade, chamo-me Chu Herong, filha de Chu Cheng, mercador imperial. Em minha casa vivem minha avó idosa, meu pai, dois tios, madrasta de sobrenome Bai, tia de sobrenome Zhao; somos nove irmãos e primos, sendo eu a primogênita. — Chu Herong parecia ter tudo já em mente, respondendo com frieza contida: — Quanto à veracidade de minhas palavras, Vossa Majestade pode mandar averiguar. Se algum dia eu o trair, que toda minha família seja exterminada sem que eu ouse lamentar.
— És de fato implacável, realmente disposta a tanto! — Mesmo alguém de temperamento como Wei Shenzhi não pôde evitar um calafrio ao ouvir tal juramento. Apostar a vida de toda a linhagem em troca de confiança era um lance ousado.
— Desde que eu não traia, Vossa Majestade não terá motivo para prejudicar minha família. Quando Vossa Majestade dominar o império e eu alcançar a glória, meus parentes também ascenderão, beneficiados por minha fortuna. — Chu Herong sorriu levemente.
— Tua confiança em mim é tamanha. E se eu perder tudo para o Príncipe Rong, arrastando contigo tua família à ruína? — questionou Wei Shenzhi, arqueando as sobrancelhas.
— Creio firmemente que Vossa Majestade recuperará o trono e será lembrado como um grande soberano. — respondeu Chu Herong, sem hesitar: — Nisso, não vacilo em minha fé.
— Oh? Pois então venha comigo e provemos teu ‘firmeza’. Quero ver até onde vai essa tua lealdade. — Wei Shenzhi ergueu levemente a cabeça com um sorriso, suas palavras soando como um murmúrio, mas, no fundo, aceitando a rendição de Chu Herong.
— Grata, Majestade! — Chu Herong não conteve o júbilo, ajoelhando-se e tocando a testa ao chão. Sabia que Wei Shenzhi talvez ainda não confiasse nela de todo, e que muitos testes viriam, mas, enfim, estava ligada ao destino imperial e dera o primeiro passo rumo à vitória.
Após resolver o caso de Xu Lingde, Mo Sandao logo retornou ao Salão Qingyuan. Vendo que era já meio-dia, ordenou ao departamento de cozinha imperial que trouxessem o almoço. Lideradas por Chu Herong, dezenas de criadas serviram o banquete a Wei Shenzhi. Após a refeição, e uma vez posto tudo em ordem, o imperador preparou-se para seguir ao gabinete dos ministros para ouvir as lições dos quatro grandes conselheiros.
— Majestade não vai repousar antes? Nem ao menos um breve descanso ao meio-dia? — Chu Herong franziu o cenho, discordando abertamente.
Wei Shenzhi tinha apenas quinze anos, ainda em pleno crescimento; como podia não descansar o suficiente?
— Sim, exatamente, Majestade! A oficial Chu tem razão, não force tanto a si mesmo! — exortou Mo Sandao, preocupado. Nos últimos tempos, por causa da seleção de esposas e dos assuntos do governo, Sua Majestade mal descansara, e hoje, após tantos contratempos, perdera até mesmo o breve repouso do meio-dia.
— Não importa, não me sinto cansado. — Wei Shenzhi acenou com a manga. Apesar do temperamento difícil e dos métodos cruéis, era bom para com os poucos em que confiava.
— Basta — disse, gesticulando para que Mo Sandao e Chu Herong cessassem as súplicas. Pôs-se de pé e dirigiu-se à porta: — Preparem a carruagem!
— Ai, Majestade dirige-se ao gabinete dos ministros! — Mo Sandao soltou um longo suspiro e anunciou, resignado. Quanto a Chu Herong, como oficial feminina, não tinha permissão de acompanhá-los ao gabinete, restando-lhe apenas cuidar dos afazeres no Salão Qingyuan.
— Nós, humildes servas, desejamos longa vida à Majestade. — Liderando as demais, Chu Herong acompanhou Wei Shenzhi até a porta. Mas, antes que o imperador transpusesse o limiar, um gordo e alvo eunuco de aparência quarentona entrou pelo portão lateral, seguido de outros.
— Majestade! — Ao avistar Wei Shenzhi, o eunuco pareceu surpreso. Com destreza, ajoelhou-se, a voz clara e retumbante: — Este servo, An Shunyi, intendente do Palácio Cianan, saúda Vossa Majestade. Que Vossa Majestade viva mil anos!
O Palácio Cianan era a residência da Imperatriz Viúva Song, mãe de Wei Shenzhi, e An Shunyi, seu eunuco de confiança, a servia desde que ela ainda era concubina do imperador anterior—eram mais de vinte anos de fidelidade.
O que ocorrera há pouco no Salão Qingyuan não escapara à Imperatriz Viúva Song. Song Qipo, desejando intrometer-se, retornara carregada e encharcada de chá. Os doces enviados pela imperatriz estavam adulterados—Quanto ao motivo, era evidente. Tentar manipular o próprio filho e ser desmascarada era motivo de raiva e vexame.
Wei Shenzhi sabia bem que sua mãe era mesquinha e de horizontes estreitos; a vinda de An Shunyi não era um pedido de desculpas. Ergueu a mão com solenidade:
— Intendente An, pode levantar-se. Vossa vinda... Será que a Imperatriz Viúva Song tem algum recado?
No palácio havia duas imperatrizes viúvas, e como a Imperatriz Viúva Chen era a mãe legítima, mesmo sendo Song sua mãe biológica, Wei Shenzhi só podia referir-se a ela como “Imperatriz Mãe Song”—fato que sempre alimentara o ressentimento entre as duas.
— Em resposta à Majestade: Sua Alteza, a Imperatriz Viúva Song, soube que esta manhã a senhorita Qipo foi ‘cuidadosamente tratada’ pela oficial Chu Herong no Salão Qingyuan. Por isso, deseja que a oficial Chu compareça ao Palácio Cianan para receber uma recompensa. — An Shunyi manteve a cabeça baixa, a voz respeitosa, mas suficientemente clara para que Chu Herong, não muito distante, ouvisse tudo.
— Hm? — Wei Shenzhi franziu o cenho, recordando-se de que, ao descobrir algo estranho nos doces, chutara Song Qipo justamente aos pés de Chu Herong, e que, ao simular desmaio, Song Qipo ouvira a ordem de prender o frasco azul. Sua mãe sabia que ele não relataria o ocorrido, e Mo Sandao, sendo seu fiel escudeiro, era inatingível...
Por isso convocava Chu Herong, de raízes frágeis, não só para interrogatório, mas também para descontar sua ira em nome de Song Qipo.
Fosse como fosse, era sua mãe; por mais contrariado que estivesse, não convinha recusar abertamente uma ordem imperial—e, afinal, tratava-se apenas de convocar uma simples oficial feminina, não havia razão para negar.
Wei Shenzhi voltou o rosto para Chu Herong, o olhar consultando-a. Aceitara sua lealdade, e, dentro dos limites possíveis, protegeria-a.
Se ela não quisesse ir, mesmo trazendo-lhe aborrecimentos, Wei Shenzhi encontraria maneira de recusar a ordem. Mas, fugisse hoje, não escaparia amanhã. Se a Imperatriz Viúva Song decidira atormentá-la, sempre haveria uma próxima vez.
Naquele harém, uma oficial tão insignificante quanto Chu Herong não poderia evitar a imperatriz viúva. Afinal, não podia estar sempre ao lado do imperador, que tinha deveres de Estado.
Bastava afastar-se dele, e, como oficial menor, Chu Herong jamais teria como recusar uma convocação da imperatriz viúva.
— Se Sua Alteza me convoca, como ousaria desobedecer? Apenas peço ao intendente An que aguarde um momento enquanto me despeço de Vossa Majestade e então o acompanho. — Chu Herong curvou-se graciosamente diante de An Shunyi e, em seguida, saudou Wei Shenzhi.
— E então, como pretende agir? — murmurou Wei Shenzhi, ciente das dificuldades representadas por sua mãe.
— Que Vossa Majestade não se preocupe, sei muito bem o que fazer. Só peço que me conceda um pequeno favor... — Aproveitando-se do gesto de reverência, aproximou-se e sussurrou algumas palavras ao ouvido do imperador; vendo-o aquiescer, Chu Herong ergueu-se, postou-se ao lado de An Shunyi e declarou com serenidade: — Intendente An, estou pronta. Por favor, conduza-me.
Era hora de enfrentar, enfim, aquela que, em vida passada, a arrastara à desgraça e ao frio esquecimento do palácio — uma das culpadas, ao menos.