Capítulo Cinco: Causa e Efeito no Mundo, Solidão em Luofu
À beira do Mar do Leste, Yuan Tianyi permanecia sobre dedicateda rocha colossal.
A noite era de trevas e não havia lua, mas um disco de jade em forma de crescente pairava sobre sua cabeça, espalhando silenciosamente um fulgor suave que iluminava dezenas de léguas do oceano.
A brisa marinha sussurrava, erguendo espumas brancas em equivalentes flores efêmeras.
Foi há sessenta anos, quando Yuan Tianyi cultivava o “Método do Vidro do Mar do Vazio”, que deixou Luofu e contemplou pela primeira vez o mar neste exato lugar.
Sessenta anos passaram num estalar de dedos, fugazes como um relâmpago.
As lendas do mundo, nem sempre correspondem à verdade. Naquele tempo, a mais talentosa e bela discípula do Mosteiro de Cihang em décadas, a Imortal Cangyue, estava ao seu lado. Ela lhe estendeu a mão, e ele, porém, depositou em sua palma esta Pérola Moucha.
Naquele momento, Yuan Tianyi estava absorto no Dao, e por sua própria vontade rompeu o laço afetivo com a Imortal Cangyue. Mas, ao adentrar o Mistério Celestial, jamais previu que seu coração ficaria cheio de nós. Sessenta anos de cultivo foram como desatar um a um tais laços, mas enquanto a Pérola Moucha não retornava, um nó permanecia insolúvel. Agora, ao vê-la diante de si, poderia finalmente desfazê-lo; livre deste vínculo, talvez desse o último passo rumo à privacy e à transcendência. Contudo, o cenário permanecia inalterado, e ao reencontrar a pérola, ela já estava nas mãos de um jovem miserável. O aroma suave do jade ainda pairava ante o olfato, mas a pessoa, essa, já se fora. Nos olhos de Yuan Tianyi, não se podia discernir se havia júbilo ou pesar.
Permaneceu imóvel por um momento, então voltou-se lentamente para o jovem ao seu lado.
— Lá em Shu, ouviste daquele homem que eu poderia conceder-te um desejo. Dize o que queres; se estiver ao meu alcance, cumprir-te-ei.
O vento marítimo era úmido e gélido. O traje do jovem era esfarrapado, seu rosto, azul pela friagem. Fora arrastado, por arte mágica, de Shu até o distante Mar do Leste, e, durante o silêncio imóvel de Yuan Tianyi, não proferiu palavra. Somente quando este lhe dirigiu o olhar, respondeu:
— Aceitarias-me como discípulo?
— Aceitar-te como discípulo? — Yuan Tianyi lançou-lhe um olhar. — Ouro, prata, poder — até se desejasses riquezas inigualáveis, eu poderia conceder-te. Não queres outra coisa, senão ser meu discípulo?
— Sim. — O jovem acenou com a cabeça.
Yuan Tianyi nada disse. Repentinamente, um brilho prateado reluziu em seus olhos. O jovem sentiu, de súbito, uma torrente abrasadora explodir em seu ponto espiritual, e o cenário transformou-se: já não estava à beira-mar, mas caía num vulcão, onde só havia lava escarlate e borbulhante. Ao tocar o magma, sua carne queimava e apodrecia, a dor era tal que parecia dilacerar-lhe o crânio. Quis gritar, mas não podia; lava ardente invadia-lhe boca e narinas, queimando-lhe as entranhas. Todavia, não morria: a pele se regenerava apenas para ser novamente consumida, num ciclo incessante de dor e suplício.
— Queres ser meu discípulo por invejar minha arte, por ver que ninguém me iguala? Sabes, porém, que cultivar o Dao é como colher castanhas do fogo: quem trilha os métodos de Luofu, corpo e espírito, ambos, devem suportar dores e provações sem-fim. — A voz de Yuan Tianyi soou, fria, do alto.
Quando cessou, o jovem percebeu-se novamente sobre a rocha à beira-mar, mas a dor das feridas ainda latejava em seu corpo; suor grosso lhe encharcava a pele.
— O que sentiste hoje é apenas um vislumbre do sofrimento. Ao cultivar de fato, a dor e o horror serão centenas, milhares de vezes maiores. O Caminho de Luofu é único: de cada dez, nove perecem. Estás certo de que nada mais desejas, senão tornar-te meu discípulo? — Yuan Tianyi, vendo o jovem ofegante e exaurido, sacudiu as mangas, levemente contrariado.
Yuan Tianyi estava certo de que o jovem mudaria de ideia. Contudo, para sua surpresa, mesmo encurvado pela dor e ainda mais magro sob o vento marítimo, os olhos do rapaz resplandeciam com uma determinação jamais vista. Depois de assentir com vigor, respondeu, com voz rouca como seimada em brasas:
— Não temo.
O olhar de Yuan Tianyi manteve-se frio.
— Aceitarei-te como discípulo. Mas, segundo as regras de Luofu, todo aspirante deve passar por uma prova. Nem eu posso dispensar-te disso. Se fracassares, tampouco poderás pedir qualquer outra coisa. Estás decidido?
Encurvado, o jovem assentiu novamente, com firmeza.
Yuan Tianyi franziu ligeiramente o cenho. Era evidente que se tratava de um jovem comum das montanhas, mas, quanto mais o fitava, mais percebia algo de incomum naquele rapaz magro. Os olhos, límpidos, faiscavam com ardor distinto do temor ou indiferença costumeiros entre os miseráveis.
Seria esse, acaso, o fio de causalidade mundana que ele próprio não conseguira romper?
Yuan Tianyi contemplou mais uma vez a Pérola Moucha, azul e luminosa em sua mão. Ao erguer novamente o rosto, o brilho do disco de jade sobre sua cabeça dissipou-se sem ruído.
Uma faixa de luz branca, levemente azulada, ergueu-se do Mar do Leste, rumando ao sul, a uma velocidade muito superior às espadas voadoras de Shu.
— Que os imortais nos protejam! — exclamaram, sobre um barco de pesca ao longe, alguns pescadores madrugadores, que, ao verem a luz azulada, prostraram-se em temor reverente.
***
Yuan Tianyi conduziu o jovem a um vale entre montanhas elevadas.
Seria ali o local da provação de ingresso? Yuan Tianyi nada disse, e o jovem não ousou perguntar. Perante seus olhos, um cenário insólito: um lago alpino de azul profundo, refletindo montanhas e florestas circundantes; nas margens, arbustos e flores desconhecidas, muitos com bagas coloridas. Era abril, a primavera em flor, mas sobre o lago flutuavam placas de gelo branco. Observando atentamente, o rapaz percebia que, das profundezas azuladas, surgiam sem cessar lâminas translúcidas de gelo.
Yuan Tianyi, de pés descalços, aproximou-se da água; a Pérola Moucha escorregou de sua mão e caiu no lago.
Aquela joia, capaz de fazer perder a razão a quase todos os cultivadores do mundo, foi assim lançada nas águas profundas de onde emergiam finas lâminas de gelo.
Ao cair, a Pérola Moucha não afundou, mas flutuou. De súbito, rachou como crisálida, e o jovem viu, surpreso, uma muda brotar rapidamente, pairando sobre as águas. Seus ramos e folhas eram translúcidos, como fragmentos de gelo, límpidos e brilhantes.
— O que é isso? — o jovem não conteve sua curiosidade e perguntou.
Mal as palavras lhe escaparam, sentiu apreensão. Sabia que, perante Yuan Tianyi, até figuras como Hetu e o Mestre Lieyang eram como formigas; Yuan Tianyi, aos seus olhos, era um verdadeiro deus. Perguntar sem permissão seria, certamente, uma ofensa.
Contudo, Yuan Tianyi respondeu com indiferença:
— Isto é uma Jingtu. Floresce a cada cem anos, frutifica a cada mil. Após frutificar, seca e morre. A Pérola Moucha é a semente que ela produz.
— Então só existe esta única? Ela não se sente solitária? — murmurou o jovem.
— Solitária? — Yuan Tianyi estacou, surpreso. Olhou então para a pequena Jingtu flutuando, tão cheia de vida, e murmurou em seu íntimo: “Jovem ignorante, que saberias tu? Neste mundo, o que não é solitário?”
Aquela cadeia montanhosa era úmida, de clima ameno, árvores densas, adormecida em meio à desolação inabitada.
Com a velocidade da técnica de voo de Yuan Tianyi, partiram do Mar do Leste ainda noite, chegando ao vale ao alvorecer. Fora do vale, o jovem via, entre as serras, densos nevoeiros multicoloridos. De súbito, viu cobras venenosas enroscadas nos galhos; mesmo a vários metros de Yuan Tianyi, tais criaturas rastejavam para longe, temerosas. Mas a onipresença de tais serpentes e o cenário inóspito levaram o jovem a perguntar:
— Que lugar é este?
Yuan Tianyi, de mãos às costas diante de um pico abrupto envolto em névoa, respondeu lentamente:
— Eis aqui a morada de Luofu.
O jovem ignorava se as cavernas do Luofu eram como os mitos descreviam — plenas de névoa imortal e néctares celestiais —, mas ao menos o que via eram montanhas selvagens, longe das lendas dos palácios imortais. O sol da manhã tingia de ouro seus rostos. A montanha atrás deles era de uma verticalidade assustadora, coberta de árvores e cipós; a meia encosta, um espesso nevoeiro impedia de ver-lhe o topo. Não havia trilhas ou degraus, apenas uma antiga corrente de ferro negra pendia do alto.
— Três li ao sul, há uma cabana de madeira onde os povos miao fazem pouso. São de hábitos simples; lá há água e alimento. Se hospedares, basta repor o que consumares. Não dormiste esta noite e és fraco; podes repousar antes de tentar. — O trato de Yuan Tianyi era frio e distante como o gelo que flutuava no lago. Apenas então, indicou com o queixo o pico atrás de si: — Este pico não tem nome, mas é nele que reside o Luofu. Se chegares ao topo, serás discípulo de Luofu; se não, deixa a montanha.
As palavras de Yuan Tianyi eram cortantes, sem margem para súplicas. O jovem olhou a escarpa e a corrente, e, sem mais, curvou-se em saudação, quebrou um ramo e, afastando o mato, partiu em direção à cabana.
Assim que sua figura desapareceu na floresta, uma silhueta idosa surgiu às costas de Yuan Tianyi. O ancião, de cabelos grisalhos e rarefeitos, o rosto sulcado por rugas profundas como vales, portava o traje tradicional dos miao, de azul tingido e puído. Se estivesse sentado numa varanda de palafita, fumando calmamente, seria apenas um velho comum, mas seus olhos, de um dourado intenso como o sol nascente, brilhavam em descompasso com a idade. Observando o rumo do jovem, murmurou:
— Mestre, este rapaz é de natureza perseverante, e de boa aptidão. Parece, de fato, alguém que poderá ser forjado.
— É? — Yuan Tianyi respondeu, gélido. — Lao Zhaonan, faz tempo que não desces ao mundo. Sabes que o caos voltou a grassar, e a fome assola as massas. Nos olhos desse jovem há rebeldia, indignação, uma coragem que nasce do sofrimento injusto. Quanto à natureza e aptidão… já devias saber que só o tempo revela o coração.
***
Umas poucas cabanas de madeira jaziam no cume. Eram rudimentares, feitas de troncos locais. A montanha, altíssima, irrompia as nuvens. Do topo, viam-se picos a despontar de um mar de névoa.
De costas ao vento, Lao Zhaonan acendeu o fogo sob um caldeirão negro, recolheu as cinzas e as depositou num tubo de bronze. Enquanto realizava o ofício, o rosto, marcado pela foice do tempo, exibia uma concentração semelhante à de quem lapida porcelana fina.
— O yang nasce do extremo yin; tudo depende do clima. Por que tanta complicação? — disse, observando Lao Zhaonan analisar o voo das cinzas. Um volume de brocado dourado, contendo o “Clássico do Interior dos Sete Elementos do Caldeirão de Ouro”, repousava descuidadamente sobre a mesa.
Lao Zhaonan sorriu ao olhar para Yuan Tianyi, cuja presença parecia alheia ao mundo.
— Assim passo o tempo. Mestre, dentro de três dias haverá uma grande tempestade, não?
Yuan Tianyi não respondeu. Olhou para um machado e lenha recém-cortados, e devolveu a pergunta:
— Lao Zhaonan, há quanto tempo não acendemos o fogo?
O velho coçou a cabeça.
— Três anos? Ou cinco? O tempo é longo, já não sei dizer.
— Sim, tempo demais. Já recorres a esses afazeres para preenchê-lo. — Yuan Tianyi olhou-o e disse: — Tenho buscado o Dao, intentado compreender o mistério dos seres. Nestes sessenta anos, sabes o que vi?
— Sessenta anos atrás, já havias dominado o “Método do Vidro do Mar do Vazio”. Eu, servo obtuso, como poderia alcançar o que viste? — Lao Zhaonan sacudiu a cabeça.
— O forte devora o fraco — tal é a lei da natureza, e o Dao celeste não é diferente. — O semblante de Yuan Tianyi era severo. — Não tens intenção de prejudicar, mas os outros têm de te prejudicar. Não matas, mas querem te matar.
— Mestre tem razão. Mas já estou velho demais. — Nos olhos do ancião havia uma aceitação serena. — Enquanto mestre existir, eu existo; se mestre se for, vida e morte não mais importam.
— Acreditas que ele conseguirá subir? — Yuan Tianyi desviou o olhar, e, com dedos longos o bastante para incitar o ciúme das mulheres, desenhou um mudra arcano. Fios de nuvem branca se condensaram numa lente de mais de dois metros, refletindo claramente tudo da base ao meio da montanha.
Um feitiço de tal nível, capaz de repelir a maioria dos ataques imortais, era por ele usado apenas como espelho de observação, prodigalidade que muitos considerariam ultraje ao sagrado, mas tal gasto de poder parecia não afetá-lo.
Lao Zhaonan friccionou as mãos calejadas. No espelho, via o jovem subindo penosamente pela corrente. Os galhos e o ferro já haviam talhado seus membros, mas ele seguia, embora, para um menino de doze ou treze anos, aquela montanha fosse íngreme demais. Não tardou a exaurir-se e escorregar de volta.
— Parece que não conseguirá. — Lao Zhaonan jamais duvidava das palavras do mestre, mas, respeitoso, completou: — Todavia, mestre, desde que o vi, pressenti algo diferente nele.
Por mais que Lao Zhaonan sentisse diferença no jovem, jamais houve, nos registros de Luofu, menção a alguém que alcançasse o cume sem esforço apenas pelo apreço de outrem.
No dia seguinte, Lao Zhaonan passou as horas em silêncio, meditando, e depois trouxe um pilão há muito inutilizado, debulhando painço sob o vento, assistindo em quietude as cascas douradas serem levadas.
Ao meio-dia do terceiro dia, despertando de sua imobilidade, sorriu ao ver Yuan Tianyi, fundido à natureza, diante do espelho mágico que flutuava no ar.
— O rapaz não é tolo — e nos olhos amarelados brilhou um lampejo. Como antes, o jovem tentava subir; seus ferimentos haviam aumentado, mas agora usava cordas de pano atadas às mãos e à cintura. Quando exaurido, amarrava-se à corrente, pendendo como um defumado, para descansar. Antes, jamais passara de um quarto do caminho, mas hoje já quase atingia o meio.
— Só agora, após dias, pensou nisso? Não é tão tolo. Mas, ainda assim, conseguirá chegar ao topo? — Yuan Tianyi não se impressionou.
Lao Zhaonan nada disse, apenas olhou para os sinos de bronze pendurados na cabana. Agora, todos tilintavam suavemente: uma tempestade, frequente nas montanhas de Luofu, finalmente se anunciava.