Capítulo Seis Olhos como Fogo-Fátuo, As Leis de Luofu
Comparado a alguns dias atrás, excetuando o conhecimento que agora possuía acerca do terreno abaixo de um terço daquele íngreme pico — sabendo onde e como escalar para poupar forças —, a condição física do rapaz, ao contrário, declinara levemente. Em seu corpo, acumulavam-se não menos que uma dezena de feridas visíveis, a maioria legado do primeiro dia de escalada: então, recusando-se a desistir, quando exaurido ao limite, já não tinha forças sequer para segurar-se nas correntes, deslizando para baixo apenas pelo atrito entre mãos, pés e ferro. O clima úmido e quente entre as cadeias de Luofu agravara as lesões, quase todas já inchadas e infeccionadas, ardendo com uma dor lancinante a cada movimento. E as adversidades não se restringiam a isso: as parcas provisões encontradas na cabana dos Miao Yi mal sustentariam mais três ou quatro dias. Nos últimos dois, o rapaz já se via compelido a gastar considerável tempo buscando qualquer coisa que lhe servisse de alimento naquele ambiente onde serpentes venenosas e feras selvagens espreitavam por toda parte. Embora tivesse ideado amarrar-se à corrente com tiras de tecido para descansar um pouco quando a exaustão o vencia, tal alívio jamais era suficiente para restaurar-lhe as forças. Assim, quando atingiu a altura próxima ao meio da montanha, sentia braços e pernas tão pesados como se estivessem cheios de chumbo. No início, após prender-se e repousar, ainda conseguia avançar sete ou oito metros até deter-se novamente. Mas agora, cada dois ou três metros conquistados exigiam nova pausa.
O rapaz sabia que se aproximava do limite — e, ao erguer os olhos, sequer adivinhava quanto faltava para o topo. Ainda assim, não havia em seu peito lugar para desalento ou frustração. O que ocupava-lhe o pensamento era que o método se mostrara eficaz, permitindo-lhe alcançar o dobro da altura habitual. Se hoje não conseguisse subir, voltaria a tentar amanhã; bastava que, a cada dia, subisse um pouco mais, e enfim alcançaria o cume.
De fato, não era dotado de grande esperteza, mas possuía uma tenacidade e uma pureza raras entre os homens. Outro jovem de sua idade talvez não chegasse nem a um terço do caminho. Agora, cerrando os dentes, continuava a escalada, sem ousar relaxar nem por um instante, atento a cada detalhe ao redor. Em torno da corrente, cresciam densamente arbustos e lianas, e a paisagem mudava a cada metro escalado. Subitamente, ouviu um ruído — “sisso” — e seu coração estacou. Enquanto a mão esquerda se firmava com toda força à corrente, a direita, num relance, empunhou o facão de lenha preso à cintura. Antes de partir, o rapaz descartara tudo quanto não fosse absolutamente necessário para aliviar o peso; apenas conservara o facão, útil tanto para abrir caminho entre galhos e espinhos quanto — e principalmente — para defesa: certa vez, durante a escalada, vira, enroscada numa liana, uma víbora ressequida, grossa como o braço de uma criança.
Seguindo o som, respirou aliviado: era apenas um pequeno macaco cinzento, que, arregalando olhos vivos, lançou-lhe um olhar curioso e, assustado, desapareceu entre as pedras e arbustos.
“Péssimo, vai chover!” Mal recolocara o facão à cintura, uma rajada de vento cortante quase o lançou das correntes abaixo, provocando-lhe um suor frio que lhe percorreu o corpo. Num instante, o céu límpido encobriu-se de nuvens densas, e a tarde mergulhou em sombras.
Uuu! Uuu!
Do nada, um estranho som ecoou em seus ouvidos — como se alguém soprasse, ao longe, um imenso búzio, grave e oco.
O vento tornou a soprar, e aquele som inusitado ressoou ainda mais forte. Olhando com atenção, viu, logo acima de sua cabeça, que galhos secos e folhas eram sugados para dentro de algum vazio, como se tragados por uma boca invisível.
Diante da iminência de um temporal, o mais seguro seria descer o mais depressa possível pelas correntes. Contudo, a curiosidade o venceu, e ele, irresistivelmente, continuou a subir. Um arbusto, ao crescer tortuoso, rasgou sua roupa com um estalo e abriu-lhe uma nova ferida nas costas, mas o rapaz exclamou, jubiloso: diante de si, oculto por lianas, surgia um abrigo — uma caverna cuja entrada mal permitia a passagem de um homem curvado. O estranho som, compreendeu então, era o vento soprando no interior do rochedo.
A entrada estava coberta por uma espessa camada de galhos e folhas, macia como algodão. Ao pisar, sentiu o chão firme e desabou ali mesmo, exausto, mal tendo tempo de acomodar-se antes que grossas gotas de chuva, como pérolas rompidas de um fio, começassem a despencar.
Num instante, todo o Luofu mergulhou em brumas; acima do verde profundo, erguiam-se véus de névoa branca. Tal cena, pensou o rapaz, poucos privilegiados veriam em vida. Mas a água que o vento trazia para dentro logo o encharcou, e, sem tempo para poeticidades, sorriu amargo, levantou-se e pôs-se a explorar a caverna.
Fora a entrada, molhada pela chuva, o interior era seco e não havia sinais de serpentes ou insetos. A passagem estreitava-se, mas, após alguns metros, surpreendentemente alargava-se e uma tênue claridade filtrava-se adentro. Guiando-se pelas paredes, o rapaz adentrou mais, até que o espaço se abriu diante de seus olhos: um salão natural de dezenas de metros, com orifícios no teto por onde a chuva caía em cortinas de prata e a luz penetrava suavemente. Agora compreendia: o vento que entrava pela boca da caverna e saía por esses orifícios criava o estranho bramido, e, por isso, o ar ali dentro era fresco.
Sob os buracos do teto cresciam moitas de arbustos, e a água caindo ressoava leve. Fora algumas rochas de formas bizarras, o chão era plano, apropriado para um refúgio. Quem imaginaria que, no coração da montanha, houvesse um abrigo tão inesperado? O coração do rapaz se enchia de júbilo: imaginou que, em dias de sol, feixes de luz desceriam, iluminando as folhagens.
“Esses arbustos dão frutos... será que são comestíveis?” Aproximou-se, curioso: os galhos negros, com poucas folhas semelhantes a samambaias, ostentavam em cada haste cinco ou seis bagas vermelhas, do tamanho de um polegar, de aspecto tentador.
Estendia a mão para colher uma, quando — súbito! — um silvo agudo, vindo da esquerda, ecoou pela caverna. O rapaz voltou-se num sobressalto, sentindo o frio percorrer-lhe a espinha: quatro olhos vermelhos como brasas o fitavam, pertencentes a uma criatura de dois rostos, monstruosa, entre o humano e o bestial!
A criatura, de não mais que um metro de altura, mantinha-se ereta como um homem. Tinha dois crânios, um à esquerda, outro à direita, ambos de traços nítidos, cabelos brancos, a pele enrugada como teias de aranha. Não fossem os olhos estreitos e rubros, pareceria apenas um velho grotesco, não algo tão assustador. Tinha mãos e pés, mas eram mirrados e retorcidos como garras de galinha, e seu apoio principal era uma cauda longa e grossa, semelhante à de um crocodilo.
O rapaz recuou dois passos, instintivamente empunhando o facão.
“Fss!” O monstro revelou uma expressão odiosa nos dois rostos e, num salto, lançou-se sobre ele. O coração do rapaz contraiu-se de horror; erguendo o facão, desferiu um golpe. Contudo, a criatura não se esquivou: sua cauda varreu o ar, e o impacto foi tão brutal que o braço do rapaz ficou dormente, a mão sangrou e o facão caiu ao chão.
Rastejando, ele agarrou uma pedra e atirou-a contra o monstro, acertando-o duas vezes, o que só aumentou sua fúria. Então, um dos crânios abriu a boca e expeliu uma labareda, tão intensa que as pedras lançadas pelo rapaz estalavam sob o calor e eram despedaçadas pelo fogo.
“Consegue cuspir fogo!” O terror tomou-lhe, e percebeu que não restavam mais pedras ao alcance; exaurido, já não tinha forças sequer para correr.
No cume, a figura de Yuan Tianyi se desenhava vaga sob a tempestade, solitária, como tinta diluída prestes a sumir do papel. De fato, desde trinta anos atrás, quando Yuan Tianyi enfrentara os ventos na beira do abismo, o velho Zhaonan nutria essa sensação: que, a qualquer momento, ele se dissolveria no ar. Àquela época, Yuan Tianyi já ocupava o topo da pirâmide deste mundo; figuras assim não mantinham laços com meros cultivadores, quanto mais com os homens e monstros ignorantes das montanhas. Contudo, a Pérola Moucha era o que o atava, e a corrente e o pico sem nome eram as únicas regras que impusera ao rapaz; nada seria tolerado que ameaçasse sua ordem, nem sob sua própria vista.
“Impertinente!” Sob o aguaceiro e o vento, Yuan Tianyi proferiu, glacial, estas palavras. Uma mão ergueu-se, como para colher a chuva, e uma lâmina de luz rubra surgiu do nada, precipitando-se do topo da montanha.
Embora não ostentasse o fulgor das espadas voadoras de Shu Shan, tal qual as leis que regem Luofu, as coisas mais discretas costumam ser as mais perigosas.
“Não quero morrer assim! Com tanto esforço, só para acabar devorado por um monstro!” Na caverna, ante o ataque da criatura, o rapaz sentiu o peito tomado de revolta e fúria. Num instante, seus olhos também se tingiram de sangue, como um lobo ferido prestes a morder o inimigo, mesmo sem forças para lutar. “Impertinente!” Mas, nesse momento, a voz de Yuan Tianyi ribombou dos céus como um trovão.
E a lâmina rubra foi mais rápida que o próprio som!
Atordoado, os ouvidos zunindo como sob um raio, o rapaz mal percebeu quando a espada de luz já cortava o ar, investindo contra o monstro.