Capítulo Sete As numerosas cumeadas de Luofu, todas se descortinam diante dos olhos!
A luz da espada mal penetrara a entrada da caverna quando o monstro sentiu como se uma lâmina lhe cortasse a garganta, sufocando-lhe o ar.
Um perigo avassalador, como uma calamidade dos céus!
Num instante, as rugas profundas como talhos de faca na face da criatura pareciam rasgar-se ainda mais. “Huu!” Ambos os seus crânios escancararam-se, expelindo línguas de fogo resplandecentes; essas chamas eram mais intensas e ferozes do que a que cuspira antes, parecendo prestes a incendiar até mesmo o ar da caverna.
Mas a lâmina de luz da espada atravessava tudo como se nada encontrasse em seu caminho, rasgando até o próprio espaço; em um relance, cortou por entre as labaredas e fez voar uma das cabeças do monstro bicéfalo.
O sangue jorrou, de um verde escuro como tinta! O monstro urrou de dor, seu rabo semelhante ao de um crocodilo chicoteava o solo, fazendo voar pedras e destroços por toda parte.
O jovem, porém, parecia ter esquecido que o monstro ainda estava próximo; seus olhos não se desviavam da tênue espada voadora, fitando-a sem piscar.
A luz da espada brilhou um instante — e este ser aterrador já perdia uma de suas cabeças. Eis o que é poder!
Quando seria capaz de possuir tal força? Quando seria como aqueles homens, que cavalgam a luz das espadas, sem precisar erguer os olhos do chão para admirar o impossível?
O jovem fitava a lâmina etérea, o coração tomado de assombro. E a espada girava no ar como um reflexo fugidio, pronta a desferir outro golpe mortal sobre o monstro.
Sob aquele brilho tênue, o rapaz viu o corpo da criatura tingido de sangue verde-escuro, ainda mais aterrador; mas, no único olhar que lhe restava, via-se um medo suplicante, as mãos unidas ao peito numa prece desesperada. O jovem viu então não um monstro horrendo, mas uma criança assustada, implorando perdão por uma travessura. E porque crescera só e oprimido, sua compaixão acendeu-se ainda mais forte. Quando percebeu que a lâmina descia outra vez, impelido por instinto, lançou-se à frente do monstro.
— Imbecil!
A espada de Yuan Tianyi era veloz como o relâmpago; mal o jovem se interpôs, a lâmina já tocava seu peito. Mesmo comunicando-se com o espírito da espada e tentando recuar a tempo, quase cortou o rapaz ao meio. “Ele quer matá-lo, e você quer salvá-lo? Pois que seja, faça como quiser!” — tomado de cólera, Yuan Tianyi recolheu a espada e decidiu não mais se importar com o destino do jovem.
Fragmentos de pedra rolaram caverna abaixo.
Em sua irritação, Yuan Tianyi fez com que a espada voadora irrompesse pelo teto da caverna — rocha sólida, espessa por metros, mas que a lâmina cortou como se fosse tofu, rasgando em linha reta até emergir na tempestade, como um dragão ascendente. O jovem, ao ver aquilo, estremeceu: se a espada tivesse prosseguido, mesmo que fosse feito de ferro, teria sido partido em dois. Senti então uma dor aguda no peito, e ao baixar os olhos viu o sangue escorrendo: mesmo recolhida no último instante, a lâmina deixara uma trilha superficial sobre sua pele.
Após tantas provações, o rapaz já mal se aguentava; com mais esse ferimento, o mundo girou, as pernas fraquejaram e ele tombou ao solo. As feridas latejaram, e ele não conteve um gemido abafado de dor.
“Salvei este monstro — será que ainda assim tentará me matar?” Esse pensamento atravessou-lhe a mente, mas ao olhar de novo percebeu que a criatura, aterrorizada pela espada de Yuan Tianyi, encolhera-se num canto da caverna, toda tremores e medo.
Vendo-a tão desamparada, o coração do rapaz encheu-se de pena; não resistiu e falou em tom brando:
— Não tema. Ele é um homem raro no mundo, e uma vez tendo dito que não o matará, jamais voltará atrás.
O jovem admirava profundamente Yuan Tianyi; como ainda não fora aceito como seu discípulo, não ousava chamá-lo de mestre, referindo-se apenas como “ele”.
O monstro pareceu entender-lhe as palavras, o tremor do corpo cessando aos poucos, embora os olhos continuassem cheios de pavor.
Com o peito sangrando e as feridas ardendo, o jovem não se preocupou mais com a criatura; rasgou o que restava de suas roupas, improvisou uma bandagem e cuidou dos ferimentos. Quando finalmente estancou o sangue, esgotado, deitou-se ao chão.
Passado algum tempo, ouviu um farfalhar — o monstro se aproximava.
Apesar de ter perdido uma cabeça, parecia não estar em perigo de vida; o sangue já estancara. Os olhos rubros, como fagulhas, giravam atentos; a boca entreaberta, os dentes à mostra, dando-lhe um aspecto feroz.
— Então, você vai me matar? — disse o jovem, num sorriso amargo, deitado e sem forças. — Se quiser, não posso nem resistir. Mate-me logo.
O monstro fitou-o por um momento, depois fez repetidas reverências.
— Está me agradecendo, não quer me matar?
O rapaz hesitou, mas logo balançou a cabeça:
— Não precisa me agradecer. Você perdeu uma cabeça, está bem? Aqueles frutos eram seus? Não quis roubá-los, só estava curioso para ver um de perto.
O monstro, incapaz de compreender palavras humanas, gesticulava de diversas formas; o rapaz achou graça da situação e riu.
Ao vê-lo rir, o monstro também pareceu constrangido, coçando os poucos pelos grisalhos do único crânio que lhe restava. O gesto só aumentou o riso do rapaz, e por fim até o monstro escancarou um sorriso — e, naquele momento, já não lhe parecia feio ou aterrador.
— Você mora aqui?
— Este é o seu lar? Posso ficar uma noite? Não tenho forças para descer agora.
Conversaram cada um à sua maneira, e não se sabia se o monstro entendia algo.
Recobrando algum ânimo, o rapaz se ergueu, e o monstro lhe estendeu a mão, oferecendo-lhe uma pequena planta de folhas verdejantes, arrancada com cuidado, raízes intactas.
— O que é isso? — perguntou o jovem, curioso.
A planta parecia comum, com folhas modestas e um bulbo arredondado e radículas arrumadas, como se fora extraída com delicadeza.
— Hm? — Ao ver pela lente do espelho luminoso o que o monstro entregava, Yuan Tianyi hesitou.
Os olhos âmbar de Lao Zhaonan brilharam: — “Zhànxīkèzhā-cao?”
— Quem diria que esse insignificante salamandro montês saberia retribuir um favor — murmurou Yuan Tianyi, sem responder a Lao Zhaonan, e desapareceu do espelho, que até então revelava cada detalhe da caverna.
As rugas no rosto de Lao Zhaonan suavizaram-se num sorriso cúmplice:
— Mestre, não distingue bondade pela aparência ou origem, abriga a virtude em seu coração. Isso não se ensina — e é o que o faz diferente dos outros lá fora.
Yuan Tianyi silenciou, erguendo o olhar ao céu.
Na névoa da chuva, via fluxos de energia invisíveis aos olhos comuns, mas mesmo assim não podia decifrar os meandros do destino.
Enquanto o jovem examinava a planta esmeralda que o monstro lhe entregara, percebeu que a criatura gesticulava, levando as mãos à boca.
— Você quer que eu coma isto?
Ao ouvir, o monstro assentiu energicamente, emitindo sons sibilantes.
— Para que serve? — insistiu o rapaz, mas o monstro apenas gesticulou ainda mais.
O jovem hesitou, lembrando-se de quando fora enganado a comer a pérola de Mocha por Kong Tong; mas vendo a sinceridade da criatura, acabou levando a planta inteira à boca.
O sabor era amargo, com um fétido estranho e indescritível; ao engolir, nada sentiu de imediato, mas logo uma onda cálida irrompeu do abdome, como fogo a percorrer fígado, coração, garganta e, por fim, explodiu no topo da cabeça.
O jovem não conteve um grito, e um vapor branco escapou de sua boca.
Espantado, sentiu-se como se imerso em águas termais, revigorado. Pouco depois, ergueu-se de um salto, surpreendendo-se ao ver que pulava mais de três metros. Ao firmar-se no chão, notou sangue escorrendo de alguns ferimentos, mas uma energia nova pulsava em todo o corpo.
— Que maravilha é esta! — exclamou, maravilhado, alongando braços e pernas.
O monstro, embora continuasse gesticulando, parecia contente.
— Agora sou eu que devo agradecer! — disse o jovem, curvando-se em reverência, como aprendera com a criatura. — Com isso, talvez eu consiga chegar ao topo hoje mesmo.
Ao ouvir falar no cume, o monstro recuou, assustado. O rapaz apressou-se em tranquilizá-lo:
— Não tema, ele é um bom homem; só o feriu porque pensou que você me faria mal.
O monstro, ainda temeroso, colheu cuidadosamente um fruto do arbusto escuro, colocou-o na boca e, apesar das explicações do rapaz, fez-lhe repetidas reverências antes de sair da caverna, descendo pela corrente até sumir de vista.
A chuva cessara; a corrente permanecia escorregadia, mas o jovem, sentindo-se revigorado, apressou-se a subir, antes que a força repentina se dissipasse.
Viu o monstro desaparecer e logo retomou a escalada pela corrente.
No início, ainda temia não conseguir se segurar e despencar, mas à medida que subia, sentia-se cada vez mais leve, como se não lhe faltassem forças nos braços e pernas.
Logo, subia com agilidade de aranha, a velocidade multiplicada muitas vezes.
De súbito, viu que a corrente estava presa a uma pedra cilíndrica; com um salto, firmou-se — e percebeu que finalmente alcançara o topo da montanha!
Todos os picos de Luofu estendiam-se diante de seus olhos.
— Finalmente cheguei! —
Nesse instante, o coração do jovem transbordava de emoções, sem saber ao certo o que sentia, tomado de um fervor que não podia conter.