Capítulo 4: Alcance da Reconciliação
— Os mongóis da dinastia anterior perpetraram um massacre em Pequim que durou um mês inteiro, ceifando a vida de mais de um milhão de chineses han, sem poupar mulheres, crianças ou anciãos; os mongóis marcharam sobre Sichuan e ali mataram vinte milhões de han, restando apenas paisagens desoladas e lares despovoados; em Xuzhou, Hangzhou, por onde passaram, noventa e nove em cada cem han foram mortos!
— Vocês cercam a cidade com cem mil homens, mas eu, em Shanhaiguan, tenho quarenta mil soldados sob o comando de Wu Sangui. Por que não o convoco para voltar e defender a capital? — perguntou Chongzhen, lançando mão de um estratagema.
— Por quê? — Liu Zongmin não conteve a ansiedade.
— Se Pequim cair, o Príncipe Herdeiro será coroado em Nanjing! Se Shanhaiguan cair, restará ao nosso povo apenas a matança pelas mãos dos demônios manchus! Após a conquista mongol, os han foram relegados à mais baixa das castas; um mongol matava um han e bastava pagar uma multa; se um han ousasse rebelar-se, era exterminada toda a sua linhagem! Quando um han tomava esposa, na noite de núpcias ela não podia deitar-se com o marido, mas passava três dias e três noites com um mongol!
— O que Vossa Majestade relata também chegou a meus ouvidos. Dizem que, após os mongóis tomarem o poder, perpetraram massacres por toda parte; ouvi sobre a noite de núpcias e sobre a prática de atirar ao chão o primeiro filho, tudo para preservar a pureza do sangue han — ponderou Li Yan, pensativo.
— Malditos sejam! Até as esposas sendo tomadas, e ainda assim não se rebelam! — Liu Zongmin não pôde conter-se.
— Rebelar-se significava a aniquilação de nove gerações! Os han estavam dispersos como areia, sendo derrotados um a um pelos mongóis. Como poderiam resistir? Só quando o Taizu se ergueu contra os Yuan e expulsou os mongóis de volta às estepes. Em seu leito de morte, Taizu deixou o aviso: enquanto a casa dos Zhu existir, jamais devemos permitir que a nossa grandiosa China seja novamente humilhada por estrangeiros! — Inventei tudo isso, de qualquer modo eles não saberão se é verdade ou não.
— No primeiro ano de Chongde, os demônios manchus invadiram o império, saqueando cento e oitenta mil almas; no terceiro ano de Chongde, foram quatrocentos e sessenta mil, cinco mil taéis de ouro, um milhão de taéis de prata. Pobres súditos da Grande Ming, desde então, subjugados pelos manchus! Diante do exemplo dos mongóis, achais que eu convocaria Wu Sangui de volta apenas por interesse próprio?
Li Yan baixou a cabeça envergonhado; não imaginara que a entrada dos manchus trouxera tamanha calamidade ao povo. O imperador lutava na linha de frente, enquanto ele próprio fomentava rebelião nos bastidores, trazendo ainda mais caos. Que rosto teria diante dos saqueados? Sempre alegara que sua rebelião era pelo povo... Ai, ai, ai.
— Malditos demônios manchus! — Liu Zongmin bradou. — Irmão, vamos exterminar essa raça!
Liu Zongmin, homem rude, sempre expunha suas emoções sem reservas.
Li Zicheng permaneceu em silêncio. Fora apenas um modesto funcionário de estação de correio, rebelando-se porque perdera o sustento. Por ser o mais instruído e de maior posto entre os refugiados, fora alçado à liderança, mas quem realmente arquitetava era Li Yan e Niu Jinxing; Liu Zongmin, por sua vez, era o braço armado. Li Zicheng não tinha grandes ambições, nem o estofo de um Liu Bang ou Zhu Yuanzhang. Agora, coroado rei, sentia-se satisfeito. Quanto ao povo e aos manchus, seguiria o que lhe dissessem.
Chongzhen, vendo que o momento era propício, disse-lhes:
— Os manchus são como os mongóis; uma vez invadindo a China, agirão da mesma forma. Por isso ordenei que Wu Sangui defendesse Shanhaiguan. Se Pequim for tomada, o príncipe será coroado em Nanjing e, quando o tempo for propício, liderará as tropas do sul para reunir-se a Wu Sangui e recuperar Pequim. Mas, acima de tudo, o mais urgente é unirmo-nos contra os manchus!
Chongzhen, após um rascunho mental, prosseguiu em sua retórica:
— Não vos escondo: Wu Sangui já respondeu dizendo que os manchus são ferozes e requerem reforços. Tenho sessenta mil soldados em Pequim, enviei trinta mil para apoiá-lo! Se agora vos lançardes ao ataque, apenas dois mil bastariam para tomar a cidade. Os funcionários corruptos da Ming são muitos; caso ataquem, esses canalhas logo abrirão os portões em rendição. Eis porque mantive tantos oficiais presos! Dias atrás propusestes negociações, com condições modestas e o desejo de resistir aos manchus, mas recusando-vos a vir à corte. Após refletir, concluí que, ao invés de esperar a queda da cidade e a morte, melhor é esclarecer tudo: se eu morrer, a Ming não perecerá, e ainda sereis caçados pelas quarenta mil tropas de Wu Sangui e as forças do príncipe! Se, porém, cumprirdes o tratado, concedo-vos o título de reis hereditários! Após a destruição dos manchus, podereis gozar vossa glória, senhorio e beleza! A Ming deseja conviver convosco em paz, permitindo que o povo viva em segurança!
— Mas, se tomardes Pequim pela força, Shi Kefa já marcha de Nanjing com duzentos mil soldados para socorrer o trono. Já ouvistes falar de Shi Kefa? — perguntou Chongzhen.
— Shi Kefa foi o vice de Lu Xiangsheng. Naquele ano, Yaotian mobilizou duzentos mil camponeses, e ele os derrotou de uma só vez — disse Li Yan.
— Ele mesmo. Estimo que em dez dias Shi Kefa chegará a Pequim — mentiu deliberadamente Chongzhen; pela contagem dos dias, em quinze dias ele realmente chegaria, assim como Wu Sangui, mas Pequim não resistiria tanto, estava prestes a cair!
Na História, Shi Kefa e Wu Sangui realmente marchavam para socorrer Pequim, mas antes que chegassem, a cidade caiu, e Chongzhen enforcou-se no salgueiro do Monte do Carvão. A Ming ficou sem imperador, e eles não sabiam mais a quem servir.
— Irmão, aceite! Creio que o imperador fala com razão. Rebelamo-nos porque não havia como sobreviver. A proposta de Li Yan é igual à do imperador — disse Liu Zongmin a Li Zicheng.
Chongzhen pensou: então a proposta de conciliação veio mesmo de Li Yan. Entre os rebeldes, só ele tinha tal visão e amplitude. Os demais, de fato, são meros bandidos, sem grande ameaça. Li Yan, este sim, preciso conquistar para o meu lado.
— Como podemos confiar em ti? Se recuarmos, e Shi Kefa atacar-nos, que será de nós? — questionou Li Zicheng.
— Um soberano não volta atrás com sua palavra! O maior inimigo agora são os manchus!
— Pois bem! Todos os irmãos que se ergueram comigo não tinham como viver. Já que Vossa Majestade acede aos nossos termos, desejamos coexistir em paz e combater juntos os manchus! — Li Zicheng, na verdade, era como Song Jiang: bastava-lhe um feudo para contentar-se, mas, conhecendo o destino trágico de Song Jiang, que morreu envenenado, declarou explicitamente que não se apresentaria à corte, temendo ser envenenado também. Quanto ao plano de longo prazo de Li Yan, era coisa para o futuro. Afinal, Li Yan e Chongzhen já tinham dito: a Ming do sul era poderosa, havia ainda o terrível Zhang Xianzhong, e ao norte, os manchus… O que fazer? Pois que se negocie, e pronto; não se apresentando à corte, com um domínio para si, ser rei não era mau negócio.
— Tenho um pedido — pensou Chongzhen de súbito. Por que não deixar Liu Zongmin pressionar aquela horda de burocratas? Já não me obedecem, planejam entregar-me em troca de favores! Assim, Li Zicheng, Liu Zongmin e Li Yan verão que não sou injusto, apenas há demasiados canalhas entre os oficiais; além do mais, Liu Zongmin poderá recuperar parte do tesouro roubado — se ele é capaz de extrair setenta milhões de taéis de prata, eu, sendo mais brando, poderei conseguir uns dez ou vinte milhões! — Peço aos reis Yong e Bian um favor.
— Reis Yong e Bian? Quem são? — O rude Liu Zongmin foi o primeiro a perguntar.
— O rei Yong é Vossa Senhoria — lembrou Niu Jinxing.
— Eu? — Liu Zongmin riu, envergonhado. — O imperador nomeou três reis e eu ainda não sei qual deles sou!
— Entre meus oficiais há muitos corruptos e traidores, dispostos a vender-me pela própria sobrevivência. Gostaria de, pelas mãos do rei Yong, eliminar tais indivíduos e beneficiar o povo!
— O que Vossa Majestade ordenar — Liu Zongmin demonstrou vontade de servir.
— Peço ao rei Yong e ao rei Bian que, com mil soldados de elite, desçam até os portões e comuniquem aos oficiais que eu, por ora, não retornarei ao acampamento. Se os soldados não abrirem as portas, ataquem imediatamente!
— Como? — Liu Zongmin, sem entender.
— Os covardes, nesta hora, buscarão agradar aos reis Yong e Bian, abrindo as portas e rendendo-se. Assim, poderemos eliminar esses traidores — explicou Chongzhen. — Mas peço que o rei Yong não mate inocentes. Parta imediatamente com suas tropas.
— Sim! — exultou Liu Zongmin.
Chongzhen pensou: com Liu Zongmin a eliminar os traidores, e Li Yan, esse erudito zeloso, supervisionando, poderá ver que sou, de fato, um bom imperador. Li Yan, deves dar tua vida por mim!
Zhang Jingyan, canalha vil, pensavas vender-me e manter teu posto na nova dinastia, mas não deixarei que realizes tal sonho! Aliás, com minha morte, tampouco conseguirás — será ainda pior!