Volume I Cem Batalhas, Areia Dourada e Armadura de Ouro Capítulo V Cidade de Tianshui
— Ele já ofereceu cem fios de cobre, o que é mais do que suficiente para preservar a honra da família Zhang. E ainda assim, tu não soubeste aproveitar o momento e recuar com dignidade. Nossa família fez fortuna no comércio, e em tudo prezamos pelo equilíbrio. Não fosse tua irmã ter se casado com o Príncipe de Changping, por mais dinheiro que tivéssemos, mal poderíamos nos livrar do estigma da condição de mercadores, quanto mais falar em exercer influência sobre o condado de Qingshui. E olha só, em poucos anos, já assimilaste todos os vícios dos jovens dissolutos... —
Wang Junlin sabia que aquelas palavras eram destinadas a Zhang Hongmeng, ditas por Zhang Qingyu. Antes que Zhang Qingyu terminasse, Wang Junlin viu outra pessoa, vinda apressada do pátio da frente, a qual, após anunciar-se, entrou na sala de visitas.
— Respeitosamente informo ao senhor: acabo de apurar uma notícia importante. Wang Junlin teve contato com Han Ziliang, o novo comandante da cavalaria imperial. Han Ziliang tentou recrutá-lo para servir como guarda pessoal, mas Wang Junlin recusou. No entanto, depois de ter entrado em conflito com o jovem senhor, Wang Junlin procurou Han Ziliang numa taverna. O teor da conversa entre ambos, não consegui descobrir. —
Com um estrondo seco, Wang Junlin ouviu Zhang Qingyu atirar algo ao chão:
— Aquele cão miserável chegou a ser notado por Han Ziliang... Com isso, matá-lo será bem mais trabalhoso.
— Zhang Tao, leva mil taéis de prata para a cidade de Tianshui, procura o Segundo Senhor e pede que ele faça os devidos arranjos junto à prefeitura e ao comando da cavalaria. Em especial, investiga a origem de Han Ziliang. Além disso, ordena que vigiem os quatro portões de Tianshui. Assim que Wang Junlin der as caras, quero ser informado de imediato, mas ninguém deve agir precipitadamente. —
O recém-chegado assentiu respeitosamente e retirou-se às pressas.
Wang Junlin entendeu que, por ora, Zhang Qingyu não mandaria mais ninguém atrás dos membros da família Chen. O céu do oriente começava a clarear, e, se insistisse em continuar oculto, correria risco de ser descoberto. Assim, desceu silenciosamente do telhado e deixou a residência dos Zhang.
...
Dois dias depois, à tarde, Wang Junlin conduzia um cavalo, postado no alto de uma colina. Olhava para o norte: as montanhas ao longe exibiam um verde profundo; aos seus pés, a cerca de dez léguas, o rio corria ruidoso. Do outro lado da água, erguia-se uma poderosa cidade.
Aquele rio chamava-se Jie, e a fortaleza da outra margem era a capital do condado de Tianshui.
Era a primeira vez, desde que chegara a este tempo, que Wang Junlin via uma cidade fortificada; sua curiosidade era tamanha que não se conteve e ficou ali a contemplar a paisagem.
“Em tempos vindouros, este lugar seria o coração do império; mas agora já é quase fronteira do reino Sui...”, pensou Wang Junlin, sentindo um misto de admiração e melancolia. Na Antiguidade, toda fronteira, sobretudo a setentrional, era palco constante de conflitos com povos bárbaros. Não havia paz duradoura, e ele, Wang Junlin, estava prestes a ser tragado para o turbilhão desta instabilidade.
Ciente do valor da informação, Wang Junlin aproveitara os últimos dias para sondar a situação local. Descobrira, por exemplo, que a noroeste de Tianshui ficavam os condados de Longxi e Jincheng, todos sob jurisdição da província de Yongzhou. Contudo, quem fazia fronteira direta com Tuyuhun era Jincheng. Ao rememorar a história da dinastia Sui, Wang Junlin sabia que a maior ameaça ao império não vinha de Tuyuhun, mas dos turcos ocidentais.
Na história que Wang Junlin recordava, os turcos haviam ascendido ao sul das Montanhas Altai, fundando depois o seu khanato. No segundo ano do reinado Kaihuang, os turcos invadiram o sul, sendo derrotados pelo exército Sui. No terceiro ano, o imperador Wen aceitou o conselho do astuto Gao Jiong e fomentou a discórdia entre os turcos, dividindo-os em duas facções: turcos orientais e ocidentais. Desde então, os turcos orientais dominaram o norte, enquanto os ocidentais reinaram no oeste, controlando a Rota da Seda — do leste, em Dunhuang, até o mar Cáspio, a oeste. Já a região de Dunhuang até Jincheng pertencia à influência de Tuyuhun.
Enquanto evocava tais lembranças, Wang Junlin desceu a colina conduzindo o cavalo, rumo à cidade de Tianshui.
***
Diz o provérbio: “Ao mirar uma montanha, pode-se matar um cavalo de tanto correr.” Somente ao cair da noite Wang Junlin chegou a um pequeno vilarejo na margem sul do rio Jie. Já apurara que, no verão, os portões da cidade de Tianshui se fechavam ao entardecer. Era tarde demais para entrar; só restava aguardar o dia seguinte.
Lançou um olhar à cidade do outro lado do rio, preparando-se para procurar abrigo no vilarejo, quando avistou cinco labaredas brilhantes no topo da montanha ao norte da cidade de Tianshui. No céu crepuscular, aquelas chamas destacavam-se com intensidade incomum. Logo, dos muros da cidade, soaram pesados sinos de alarme, cujas badaladas ecoavam, nítidas, mesmo a cinco ou seis léguas de distância.
O vilarejo às suas costas mergulhou em alvoroço: centenas de camponeses saíram correndo de suas casas, olhando assustados para a cidade de Tianshui e para a fumaça de sinais no monte ao norte. Em seus olhos transparecia a inquietação; pelos murmúrios, Wang Junlin logo soube que se tratava de fogo de alarme, sinalizando invasão inimiga.
Sentiu um calafrio, o semblante carregado de preocupação. Notou, porém, que os aldeões à volta não demonstravam grande pânico. Estranhando, olhou em volta e avistou uma balsa atracando. Dela desembarcava um jovem letrado de trajes elegantes. Julgando que homens de letras têm sempre mais conhecimento, Wang Junlin o abordou com um gesto respeitoso e perguntou humildemente:
— Irmão, ouvi dizer que ao norte de Tianshui estão Longxi e Jincheng. Mesmo que tribos estrangeiras invadam, não poderiam surgir subitamente aqui. Por que, então, acendem-se fogueiras de alerta na cidade de Tianshui? —
O homem, percebendo o porte distinto de Wang Junlin — que trazia consigo um cavalo e não parecia camponês —, respondeu de bom grado, apreciando também a cortesia daquele estranho:
— O irmão deve ser recém-chegado e ainda não conhece as particularidades de Yongzhou. De Jincheng até aqui, passando por Longxi e chegando a Tianshui, há torres de alarme a cada vinte li. Sempre que Tuyuhun ou turcos invadem com mais de dez mil soldados, o aviso é dado por fogo, transmitido de torre em torre até Longxi e Tianshui. Quanto ao número de invasores, se são tuyuhun ou turcos, não saberia dizer. —
Wang Junlin assentiu, agora esclarecido, e agradeceu com nova reverência:
— Agradeço ao irmão por dissipar minhas dúvidas.
***
Ao mesmo tempo, no palácio do governador do condado de Tianshui, o prefeito Yuan Jietang oferecia um banquete ao recém-nomeado comandante Han Ziliang. Todos os oficiais civis e militares de alto escalão estavam presentes. No amplo salão, cordas e flautas entoavam melodias, e um grupo de dançarinas exibia sua graça. Os brindes e conversas animadas corriam soltos, até que, de repente, o som grave dos sinos de alarme interrompeu bruscamente a festividade. Fez-se silêncio sepulcral; todos se entreolhavam, perplexos.
Um jovem oficial, sentado junto à porta, apontou para o céu noturno:
— Olhem! São sinais de fogo de alarme!
Mais de vinte oficiais acorreram à entrada, fitando as cinco colunas de fumaça elevando-se ao norte da cidade, e logo se instaurou um burburinho.
— Sinais de fogo para mais de dez mil homens... — murmurou Han Ziliang, ao contrário dos outros, transbordando de excitação. O espírito de batalha o inflamava; mal podia esperar para marchar até Jincheng e conquistar glória em combate.
Na manhã seguinte, ao raiar do dia, Han Ziliang partiu apressado ao norte com vinte e cinco mil soldados, deixando apenas cinco mil para guardar Tianshui. Nesse momento, Wang Junlin preparava-se para atravessar o rio.
***
O Jie, em época de chuvas, é um verdadeiro rio; na seca, pouco mais que um canal largo. Agora, em pleno período chuvoso, seu leito se alargava para mais de vinte zhang. Para atravessá-lo, só mesmo recorrendo à balsa.
Após aportar, Wang Junlin conduziu seu cavalo pelas sete léguas que o separavam da cidade de Tianshui. Vista do sul, a cidade parecia pequena, encostada às grandes montanhas do norte. Mas, à medida que se aproximava, revelou-se uma fortaleza imponente, de muralhas espessas e majestosidade digna de capital das três circunscrições subordinadas a Yongzhou: Tianshui, Longxi e Jincheng.
Em tempos posteriores, Wang Junlin percorrera muitos cantos do império, sendo particularmente versado nas terras do noroeste. Segundo sabia, a cidade de Yongzhou localizava-se onde hoje é Pingliang, em Gansu, e Tianshui equivalia à atual Qinzhou, no mesmo Gansu. Ao norte, as montanhas Changshan correspondiam à cadeia de Liupan, ao sul erguia-se a eterna Qinling, que jamais mudara de nome.
Tianshui ocupava um eixo vital de vales, cruzamento de rotas para norte, sul, leste e oeste. Por isso, mercadores de todos os povos circulavam em grande número, e sua população superava as cem mil almas, não ficando atrás da capital de Yongzhou. Wang Junlin sabia que a prosperidade de Tianshui, famosa em todo o noroeste, aliada à intrincada rede de vales e ravinas, tornava a cidade vulnerável a incursões de turcos, qiang e tuyuhun desde a dinastia Han.
À medida que a muralha crescia à sua frente, a estrada oficial tornava-se cada vez mais movimentada. Incontáveis vendedores apinhavam-se nos arredores, ocupando quase toda a largura da via, que excedia quatro zhang. Todo mercador que trazia mercadorias era minuciosamente revistado pelos guardas do portão e obrigado a pagar impostos; mesmo quem não portava carga era inspecionado. Wang Junlin viu com os próprios olhos um qiang armado de arco ser subitamente detido, espancado e amarrado por soldados — talvez, pensou ele, em decorrência dos alarmes da véspera, que haviam posto a guarnição em alerta.
A longa fila de entrada avançava lentamente, até chegar a vez de Wang Junlin. Sua figura robusta, conduzindo um cavalo, com espada à cintura e arco à mão, chamava atenção. Assim que transpôs o arco do portão, uma patrulha cercou-o; o chefe da guarda declarou friamente:
— Quem não pertence ao exército não pode portar armas na cidade.
Wang Junlin, que já previra tal abordagem, tirou do peito a insígnia que Han Ziliang lhe dera e respondeu:
— Sou guarda pessoal do general Han, do comando da cavalaria.
Os guardas assumiram postura respeitosa; o chefe saudou-o com deferência:
— Então é dos nossos. Por favor, entre.
— Grato. — Wang Junlin assentiu e entrou com o cavalo.
Ao atravessar o sombrio vão do portão, deparou-se com uma paisagem vibrante: ruas e ruelas se entrecruzavam, milhares de lojas e residências se perfilavam, e multidões cruzavam incessantemente. No entanto, patrulhas cavalgavam pelas vias, arqueiros vigiavam sobre os muros, e na cidade pairava um clima de severidade e tensão.
Wang Junlin indagou aqui e ali, até chegar ao comando da cavalaria, onde confirmou que, de fato, os tuyuhun haviam se lançado ao ataque contra Jincheng, e Han Ziliang, desde o amanhecer, partira pelo portão norte para socorrer a cidade. Felizmente, Han Ziliang valorizava Wang Junlin: providenciara para que este fosse registrado no exército e ordenara que acompanhasse o comboio de suprimentos rumo a Jincheng, onde o encontraria. Wang Junlin, informado da hora da partida do comboio, achou um local para comer e repousar, aguardando a saída na manhã seguinte.
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